A Cidade de Deus - Livro XII 10
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Da falsidade da história que atribui muitos milhares de anos ao passado do mundo
Deixemos, pois, de lado as conjecturas dos homens que não sabem o que dizem quando falam da natureza e da origem do gênero humano. Pois alguns sustentam, a respeito dos homens, a mesma opinião que sustentam a respeito do próprio mundo, a saber, que sempre existiram.
Assim, Apuleio diz, ao descrever a nossa raça: "Individualmente são mortais, mas coletivamente, e como raça, são imortais." E quando se lhes pergunta como, se o gênero humano sempre existiu, defendem a veracidade da sua história, a qual narra quem foram os inventores e o que inventaram, e quem primeiro instituiu os estudos liberais e as demais artes, e quem primeiro habitou esta ou aquela região, e esta ou aquela ilha, respondem eles que a maioria das terras, se não todas, foram de tempos em tempos de tal modo devastadas pelo fogo e pelo dilúvio, que os homens ficaram grandemente reduzidos em número, e que destes, por sua vez, a população foi restaurada à sua quantidade anterior, e que assim, de tempos em tempos, fazia-se um novo começo, e, embora aquelas coisas que haviam sido interrompidas e detidas pelas severas devastações fossem apenas renovadas, ainda assim pareciam ter-se originado então, mas que o homem de modo algum poderia existir senão produzido por outro homem.
Mas eles dizem o que pensam, não o que sabem.
São também enganados por aqueles documentos altamente mentirosos que pretendem dar a história de muitos milhares de anos, ao passo que, contando pelas Escrituras sagradas, verificamos que ainda não se passaram seis mil anos.
E, para não gastar muitas palavras expondo a falta de fundamento desses documentos, nos quais se contabilizam tantos milhares de anos, nem provando que as suas autoridades são totalmente inadequadas, permiti-me citar apenas aquela carta que Alexandre, o Grande, escreveu a sua mãe Olímpia, dando-lhe a narrativa que recebera de um sacerdote egípcio, a qual extraíra dos arquivos sagrados deles, e que dava conta de reinos mencionados também pelos historiadores gregos.
Nesta carta de Alexandre, atribui-se ao reino da Assíria um período de mais de cinco mil anos, ao passo que, na história grega, contam-se apenas mil e trezentos anos a partir do reinado do próprio Belo, a quem tanto gregos como egípcios concordam em contar como o primeiro rei da Assíria. Depois, ao império dos persas e dos macedônios, este egípcio atribuiu mais de oito mil anos, contando até a época de Alexandre, a quem falava; ao passo que, entre os gregos, atribuem-se quatrocentos e oitenta e cinco anos aos macedônios até a morte de Alexandre, e aos persas duzentos e trinta e três anos, contando até o término das suas conquistas.
Assim, estes dão um número de anos muito menor que o dos egípcios; e, na verdade, ainda que multiplicada por três, a cronologia grega continuaria sendo mais curta. Pois diz-se que os egípcios contavam antigamente apenas quatro meses para o seu ano, de modo que um ano, segundo o cômputo mais completo e mais verdadeiro hoje em uso tanto entre eles como entre nós, abrangeria três dos seus antigos anos. Mas nem assim, como eu disse, corresponde a história grega à egípcia na sua cronologia.
E, portanto, a primeira deve merecer maior crédito, porque não excede o cômputo verdadeiro da duração do mundo, tal como é dado pelos nossos documentos, que são verdadeiramente sagrados.
Ademais, se esta carta de Alexandre, que se tornou tão famosa, difere amplamente, nesta matéria de cronologia, do relato provável e digno de crédito, quanto menos podemos crer nesses documentos que, embora repletos de antiguidades fabulosas e fictícias, de bom grado quereriam opor à autoridade dos nossos bem conhecidos e divinos livros, os quais predisseram que o mundo inteiro neles haveria de crer, e nos quais, por conseguinte, o mundo inteiro creu; livros que provaram, também, ter narrado verazmente os acontecimentos passados pela sua predição dos acontecimentos futuros, que tão exatamente se cumpriram!