A Cidade de Deus - Livro XII 7
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Que não devemos esperar encontrar nenhuma causa eficiente da vontade má
Ninguém, portanto, busque uma causa eficiente da vontade má; pois ela não é eficiente, mas deficiente, assim como a própria vontade não é um efetuar de algo, mas um defeito. Pois defeccionar daquilo que supremamente é, em direção àquilo que tem menos de ser: isto é começar a ter uma vontade má. Ora, procurar descobrir as causas dessas defecções, causas, como eu disse, não eficientes, mas deficientes, é como se alguém procurasse ver as trevas ou ouvir o silêncio. E, contudo, ambos nos são conhecidos: as trevas apenas por meio do olho, o silêncio apenas pelo ouvido; mas não por sua atualidade positiva, e sim pela falta dela.
Que ninguém, então, procure saber de mim aquilo que sei que não sei; a menos que porventura deseje aprender a ignorar aquilo de que tudo o que sabemos é que não pode ser conhecido. Pois aquelas coisas que são conhecidas não por sua atualidade, mas por sua falta, são conhecidas, se nossa expressão for permitida e compreendida, por não as conhecermos, de modo que, ao conhecê-las, sejam não conhecidas. Pois, quando a vista examina os objetos que ferem o sentido, em parte alguma vê as trevas, exceto onde começa a não ver. E assim nenhum outro sentido, senão o ouvido, pode perceber o silêncio, e, todavia, ele só é percebido por não se ouvir.
Assim também a nossa mente percebe as formas inteligíveis ao compreendê-las; mas, quando estas são deficientes, ela as conhece por não as conhecer; pois "quem pode compreender os defeitos?"