A Cidade de Deus - Livro XII 6
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Qual é a causa da bem-aventurança dos bons anjos e qual a causa da miséria dos maus
Assim, descobre-se que a verdadeira causa da bem-aventurança dos bons anjos é esta: que eles aderem Àquele que supremamente é. E, se perguntarmos pela causa da miséria dos maus, ocorre-nos, e não sem razão, que eles são miseráveis porque abandonaram Aquele que supremamente é e se voltaram para si mesmos, que não possuem tal essência. E este vício, como mais se chama senão soberba? Pois "a soberba é o princípio do pecado". Eles não quiseram, então, conservar para Deus a sua força; e, como a adesão a Deus era a condição para que desfrutassem de um ser mais pleno, diminuíram-no ao preferirem-se a Ele.
Este foi o primeiro defeito, e o primeiro empobrecimento, e a primeira falha de sua natureza, a qual foi criada não, decerto, como supremamente existente, mas de modo a encontrar sua bem-aventurança no gozo do Ser Supremo; ao passo que, abandonando-O, viria a tornar-se, não, decerto, nenhuma natureza, mas uma natureza de existência menos plena e, portanto, miserável.
Se se levantar a ulterior questão: qual foi a causa eficiente de sua má vontade? não há nenhuma. Pois o que é aquilo que torna má a vontade, quando é a própria vontade que torna má a ação? E, por conseguinte, a má vontade é a causa da má ação, mas nada é a causa eficiente da má vontade. Pois, se alguma coisa é a causa, esta coisa ou tem ou não tem vontade. Se a tem, a vontade é ou boa ou má. Se boa, quem está tão entregue a si mesmo a ponto de dizer que uma boa vontade torna má uma vontade? Pois, neste caso, uma boa vontade seria a causa do pecado: suposição absurdíssima.
Por outro lado, se esta coisa hipotética tem uma má vontade, desejo saber o que a fez tal; e, para que não prossigamos ao infinito, pergunto desde logo: o que fez má a primeira vontade má? Pois não é primeira aquela que foi ela mesma corrompida por uma vontade má, mas é primeira aquela que por nenhuma outra vontade foi tornada má. Pois, se fosse precedida por aquilo que a fez má, foi primeira a vontade que tornou má a outra. Mas, se se responde: "Nada a fez má; ela sempre foi má", pergunto se ela existia em alguma natureza.
Pois, se não, então ela de modo algum existia; e, se de fato existia em alguma natureza, então a viciou e a corrompeu, e a prejudicou, e por conseguinte a privou do bem. E, portanto, a má vontade não poderia existir numa natureza má, mas numa natureza ao mesmo tempo boa e mutável, a qual este vício pudesse prejudicar. Pois, se não causava nenhum dano, não era vício; e, por conseguinte, a vontade na qual ele se achava não poderia ser chamada má. Mas, se causava dano, causava-o tirando ou diminuindo o bem.
E, portanto, não poderia haver desde a eternidade, como se sugeriu, uma má vontade naquela coisa em que houvera antes um bem natural, que a má vontade era capaz de diminuir, corrompendo-o. Se, então, ela não era desde a eternidade, quem, pergunto, a fez? A única coisa que se pode sugerir em resposta é que algo que ele mesmo não tinha vontade tornou má a vontade. Pergunto, então, se esta coisa era superior, inferior ou igual a ela. Se superior, então é melhor. Como, então, não tem vontade, e antes não tem uma boa vontade?
O mesmo raciocínio se aplica se era igual; pois, enquanto duas coisas têm igualmente uma boa vontade, uma não pode produzir na outra uma má vontade. Resta, então, a suposição de que aquilo que corrompeu a vontade da natureza angélica que primeiro pecou era ele mesmo uma coisa inferior e sem vontade. Mas essa coisa, seja ela da mais baixa e mais terrena espécie, é certamente ela mesma boa, pois é uma natureza e um ser, com forma e categoria próprias em seu próprio gênero e ordem. Como, então, pode uma coisa boa ser a causa eficiente de uma má vontade? Como, eu digo, pode o bem ser a causa do mal?
Pois, quando a vontade abandona aquilo que está acima de si e se volta para aquilo que é inferior, torna-se má: não porque seja mau aquilo para o qual se volta, mas porque o próprio voltar-se é perverso. Portanto, não é uma coisa inferior que tornou má a vontade, mas é ela mesma que assim se tornou ao desejar perversa e desordenadamente uma coisa inferior.
Pois, se dois homens, semelhantes em constituição física e moral, veem a mesma beleza corporal, e um deles é levado pela visão a desejar um gozo ilícito, enquanto o outro mantém firmemente um recato modesto de sua vontade, o que supomos que faz com que haja uma má vontade num e não no outro? O que a produz no homem em quem ela existe? Não a beleza do corpo, pois esta se apresentava igualmente ao olhar de ambos e, no entanto, não produziu em ambos uma má vontade. Foi a carne de um que causou o desejo, ao olhar? Mas por que não a carne do outro? Ou foi a disposição?
Mas por que não a disposição de ambos? Pois estamos supondo que ambos eram de igual temperamento de corpo e alma. Devemos, então, dizer que um foi tentado por uma sugestão secreta do espírito maligno? Como se não fosse por sua própria vontade que ele consentiu nessa sugestão e em qualquer incitamento que seja! Este consentimento, então, esta má vontade que ele ofereceu à má influência persuasiva: qual foi a sua causa, perguntamos?
Pois, para não nos demorarmos numa dificuldade como esta, se ambos são tentados igualmente, e um cede e consente na tentação, enquanto o outro permanece imóvel diante dela, que outra explicação podemos dar do caso senão esta: que um está disposto, e o outro indisposto, a afastar-se da castidade? E o que causa isto senão suas próprias vontades, ao menos em casos como os que estamos supondo, onde o temperamento é idêntico? A mesma beleza era igualmente patente aos olhos de ambos; a mesma tentação secreta pressionava ambos com igual violência.
Por mais minuciosamente que examinemos o caso, portanto, nada conseguimos discernir que tenha tornado má a vontade de um deles. Pois, se dissermos que o próprio homem tornou má a sua vontade, o que era o próprio homem, antes que sua vontade fosse má, senão uma natureza boa criada por Deus, o bem imutável? Eis aqui dois homens que, antes da tentação, eram semelhantes em corpo e alma, e dos quais um cedeu ao tentador que o persuadiu, enquanto o outro não pôde ser persuadido a desejar aquele belo corpo que estava igualmente diante dos olhos de ambos.
Diremos do homem que foi tentado com sucesso que ele corrompeu a sua própria vontade, visto que era certamente bom antes que sua vontade se tornasse má? Então, por que o fez? Foi porque sua vontade era uma natureza, ou porque foi feita do nada? Verificaremos que é este último o caso. Pois, se uma natureza é a causa de uma má vontade, que outra coisa podemos dizer senão que o mal provém do bem, ou que o bem é a causa do mal? E como pode acontecer que uma natureza, embora boa, ainda que mutável, produza algum mal, isto é, torne perversa a própria vontade?