A Cidade de Deus - Livro XII 4

Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade

Da natureza das criaturas irracionais e inanimadas, que em seu próprio gênero e ordem não desfeiam a beleza do universo

Mas é ridículo condenar os defeitos das bestas e das árvores, e de outras coisas mortais e mutáveis semelhantes, que carecem de inteligência, de sensação ou de vida, ainda que tais defeitos venham a destruir a sua natureza corruptível; pois essas criaturas receberam, pela vontade de seu Criador, uma existência que lhes convém, ao passarem e cederem lugar a outras, para assegurar aquela forma ínfima de beleza, a beleza das estações, que, em seu próprio lugar, é parte necessária deste mundo. Pois as coisas terrenas não deviam ser feitas iguais às celestes, nem deviam, embora inferiores, ser de todo omitidas do universo.
Visto, pois, que naquelas situações onde tais coisas são apropriadas algumas perecem para dar lugar a outras que nascem em seu lugar, e as menores sucumbem às maiores, e as coisas que são vencidas se transformam na qualidade daquelas que têm o domínio, esta é a ordem estabelecida das coisas transitórias. A beleza dessa ordem não nos impressiona, porque, por nossa fragilidade mortal, estamos de tal modo envolvidos em uma parte dela que não podemos perceber o todo, no qual esses fragmentos que nos ofendem se harmonizam com a mais exata adequação e beleza.
E, portanto, onde não somos tão capazes de perceber a sabedoria do Criador, somos com toda propriedade exortados a crer nela, para que, na vaidade da temeridade humana, não presumamos encontrar defeito algum na obra de tão grande Artífice.
Ao mesmo tempo, se considerarmos atentamente até mesmo esses defeitos das coisas terrenas, que não são nem voluntários nem penais, eles parecem ilustrar a excelência das próprias naturezas, que são todas originadas e criadas por Deus; pois é aquilo que nos agrada nesta natureza que nos desagrada ver removido pelo defeito, a menos que até as próprias naturezas desagradem aos homens, como amiúde acontece quando se tornam nocivas a eles, e então os homens as estimam não por sua natureza, mas por sua utilidade; como no caso daqueles animais cujos enxames flagelaram a soberba dos egípcios.
Mas, por esse modo de estimar, poderiam encontrar defeito até no próprio sol; pois certos criminosos ou devedores são sentenciados pelos juízes a serem expostos ao sol. Portanto, não é com respeito à nossa conveniência ou incômodo, mas com respeito à sua própria natureza, que as criaturas dão glória ao seu Artífice. Assim, até a natureza do fogo eterno, embora seja penal para os pecadores condenados, é com toda a certeza digna de louvor. Pois que de mais belo do que o fogo que flameja, arde e resplandece? Que de mais útil do que o fogo para aquecer, restaurar e cozinhar, ainda que nada seja mais destrutivo do que o fogo que queima e consome?
A mesma coisa, pois, quando aplicada de um modo, é destrutiva, mas, quando aplicada de modo conveniente, é sumamente benéfica. Pois quem poderia encontrar palavras para narrar os seus usos por todo o mundo? Não devemos, então, dar ouvidos àqueles que louvam a luz do fogo mas censuram o seu calor, julgando-o não por sua natureza, mas por sua conveniência ou incômodo. Pois desejam ver, mas não ser queimados. Esquecem-se, porém, de que esta mesma luz que lhes é tão agradável é contrária e nociva aos olhos fracos; e que naquele calor que lhes é desagradável alguns animais encontram as condições mais adequadas de uma vida saudável.