A Cidade de Deus - Livro XII 3
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Que os inimigos de Deus o são não por natureza, mas pela vontade, a qual, ao prejudicá-los, prejudica uma natureza boa; pois, se o vício não prejudica, não é vício
Na Escritura são chamados inimigos de Deus aqueles que se opõem ao seu domínio, não por natureza, mas por vício; sem poder algum para lhe fazer mal, mas apenas a si mesmos. Pois são seus inimigos não pelo poder de o prejudicar, mas pela vontade de se lhe opor. Porque Deus é imutável e inteiramente imune a toda injúria. Portanto, o vício que faz os que são chamados seus inimigos resistirem-lhe é um mal não para Deus, mas para eles mesmos. E para eles é um mal unicamente porque corrompe o bem de sua natureza. Não é, pois, a natureza, mas o vício, que é contrário a Deus. Porque aquilo que é mau é contrário ao bem. E quem negará que Deus é o bem supremo?
O vício, portanto, é contrário a Deus, como o mal é contrário ao bem. Além disso, a natureza que ele corrompe é um bem, e por isso também a este bem ele é contrário. Mas, embora seja contrário a Deus apenas como o mal ao bem, é contrário à natureza que corrompe tanto como mal quanto como prejudicial. Pois a Deus nenhum mal é prejudicial, mas somente às naturezas mutáveis e corruptíveis, ainda que, pelo testemunho dos próprios vícios, originalmente boas. Pois, se não fossem boas, os vícios não poderiam prejudicá-las. Com efeito, de que modo as prejudicam senão privando-as da integridade, da beleza, do bem-estar, da virtude e, em suma, de todo bem natural que o vício costuma diminuir ou destruir?
Mas, se não houver bem algum a retirar, então nenhuma injúria pode ser feita e, por conseguinte, não pode haver vício. Pois é impossível que exista um vício inofensivo. Donde concluímos que, embora o vício não possa prejudicar o bem imutável, ele não pode prejudicar senão o bem, porque não existe onde não prejudica. Isto, pois, pode formular-se assim: o vício não pode estar no bem supremo, e não pode estar senão em algum bem.
Coisas somente boas, portanto, podem em certas circunstâncias existir; coisas somente más, jamais; pois até mesmo aquelas naturezas que são corrompidas por uma vontade má, enquanto de fato são corrompidas, são más, mas enquanto são naturezas, são boas. E quando uma natureza corrompida é punida, além do bem que possui por ser uma natureza, possui também este, que não fica impune. Pois isto é justo, e certamente tudo o que é justo é um bem. Porque ninguém é punido por vícios naturais, mas por vícios voluntários. Pois até o vício que, pela força do hábito e da longa continuidade, se tornou uma segunda natureza, teve sua origem na vontade.
Porque no presente estamos falando dos vícios da natureza que possui uma capacidade mental para aquela iluminação que discerne entre o que é justo e o que é injusto.