A Cidade de Deus - Livro XII 2

Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade

Que não há essência contrária a Deus

Isto pode bastar para impedir que alguém suponha, quando falamos dos anjos apóstatas, que eles pudessem ter outra natureza, derivada, por assim dizer, de alguma origem diferente, e não de Deus. Tanto mais prontamente e facilmente nos livraremos da grande impiedade desse erro quanto mais distintamente compreendermos aquilo que Deus falou pelo anjo, quando enviou Moisés aos filhos de Israel: "Eu sou aquele que sou." Pois, sendo Deus a existência suprema, isto é, sendo supremamente, e por isso imutável, às coisas que fez concedeu poder para serem, mas não para serem supremamente como Ele próprio.
A uns comunicou uma existência mais ampla, a outros mais limitada, e assim dispôs em graus as naturezas dos seres. Pois, assim como de sapere (saber) vem sapientia (sabedoria), também de esse (ser) vem essentia (essência): palavra nova, decerto, que os antigos escritores latinos não usavam, mas que se naturalizou em nossos dias, para que à nossa língua não falte um equivalente ao grego οὐσία. Pois isto se exprime, palavra por palavra, por essentia. Por conseguinte, àquela natureza que supremamente é, e que criou tudo o mais que existe, nenhuma natureza é contrária, exceto aquela que não existe. Pois o não-ente é o contrário daquilo que é.
E assim não nenhum ser contrário a Deus, o Ser Supremo e Autor de todos os seres, quaisquer que sejam.