A Cidade de Deus - Livro XII 26
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Da opinião dos platônicos de que os próprios anjos foram, sim, criados por Deus, mas que depois criaram o corpo do homem
É evidente que, ao atribuir a criação dos demais animais àqueles deuses inferiores que foram feitos pelo Sumo Deus, ele quis que se entendesse que a parte imortal foi tomada do próprio Deus, e que esses criadores menores acrescentaram a parte mortal; isto é, quis que fossem considerados os criadores de nossos corpos, mas não de nossas almas.
Mas, visto que Porfírio sustenta que, para que a alma seja purificada, é preciso escapar de todo enredamento com um corpo, e ao mesmo tempo concorda com Platão e os platônicos em pensar que aqueles que não viveram uma vida temperante e honrada retornam a corpos mortais como castigo (a corpos de brutos, na opinião de Platão; a corpos humanos, na de Porfírio), segue-se que aqueles a quem nos quereriam fazer adorar como nossos pais e autores, para que plausivelmente os chamem deuses, não passam, afinal, dos forjadores de nossos grilhões e cadeias: não nossos criadores, mas nossos carcereiros e guardas, que nos trancam na mais amarga e melancólica casa de correção.
Que os platônicos, então, ou deixem de nos ameaçar com nossos corpos como castigo de nossas almas, ou de pregar que devemos adorar como deuses aqueles cuja obra sobre nós eles nos exortam a evitar e da qual nos exortam a escapar por todos os meios ao nosso alcance. Mas, na verdade, ambas as opiniões são totalmente falsas. É falso que as almas retornem novamente a esta vida para serem castigadas; e é falso que haja qualquer outro criador de coisa alguma no céu ou na terra, senão Aquele que fez o céu e a terra.
Pois, se vivemos num corpo apenas para expiar nossos pecados, como diz Platão em outra passagem que o mundo não poderia ter sido o mais belo e bom, se não estivesse repleto de toda espécie de criaturas, mortais e imortais? Mas, se a nossa própria criação como mortais é um benefício divino, como pode ser castigo ser restituído a um corpo, isto é, a um benefício divino? E se Deus, como Platão continuamente sustenta, abarcou em sua eterna inteligência as ideias tanto do universo quanto de todos os animais, como, então, não os faria todos com a sua própria mão?
Poderia Ele recusar-se a ser o construtor de obras cuja ideia e plano reclamavam a sua inefável e inefavelmente louvável inteligência?