A Cidade de Deus - Livro XII 23
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Da natureza da alma humana criada à imagem de Deus
Deus, portanto, fez o homem à sua própria imagem. Pois criou para ele uma alma dotada de razão e inteligência, de modo que pudesse exceder todas as criaturas da terra, do ar e do mar, que não eram assim agraciadas.
E quando formou o homem do pó da terra, e quis que a sua alma fosse tal como eu disse (quer já a tivesse feito, e agora, ao soprar, a comunicasse ao homem, quer antes a fizesse ao soprar, de modo que aquele sopro que Deus fez ao soprar, pois que outra coisa é "soprar" senão fazer sopro?, seja a alma), fez também uma esposa para ele, a fim de auxiliá-lo na obra de gerar a sua espécie; e a ela formou de um osso tirado do lado do homem, operando de maneira divina.
Pois não devemos conceber esta obra de modo carnal, como se Deus operasse à maneira em que comumente vemos os artesãos, que usam as mãos e o material que lhes é fornecido, para que, por sua habilidade artística, modelem algum objeto material. A mão de Deus é o poder de Deus; e Ele, operando invisivelmente, produz resultados visíveis.
Mas isto parece antes fabuloso do que verdadeiro aos homens, que medem pelas obras costumeiras e cotidianas o poder e a sabedoria de Deus, pelos quais Ele entende e produz, sem sementes, as próprias sementes; e, porque não podem compreender as coisas que foram criadas no princípio, mostram-se céticos a seu respeito: como se as próprias coisas que de fato conhecem acerca da propagação humana, das concepções e dos nascimentos, parecessem menos incríveis se contadas àqueles que delas não tivessem experiência; ainda que estas mesmas coisas, também, sejam atribuídas por muitos antes a causas físicas e naturais do que à obra da mente divina.