A Cidade de Deus - Livro XII 20
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Da impiedade dos que afirmam que as almas que gozam da verdadeira e perfeita bem-aventurança devem ainda assim, repetidas vezes, nessas revoluções periódicas, retornar ao trabalho e à miséria
Que ouvidos piedosos poderiam suportar ouvir que, depois de uma vida passada em tantas e tão graves aflições (se é que se deve chamar de vida aquilo que é antes uma morte, tão completa que o amor a esta morte presente nos faz temer aquela morte que dela nos liberta), que, depois de males tão desastrosos e de misérias de toda espécie terem enfim sido expiados e concluídos com o auxílio da verdadeira religião e sabedoria, e quando assim tivermos alcançado a visão de Deus e entrado na bem-aventurança pela contemplação da luz espiritual e pela participação em Sua imutável imortalidade, à qual ardemos por chegar, que tudo isso devamos em algum momento perder, e que aqueles que o perdem sejam lançados daquela eternidade, verdade e felicidade para uma mortalidade infernal e uma vergonhosa insensatez, e se vejam envolvidos em desgraças malditas, nas quais Deus se perde, a verdade é tida em detestação e a felicidade é buscada em impurezas iníquas? E que isto haja de acontecer sem fim, repetidas vezes, recorrendo em intervalos fixos e em períodos que regularmente retornam? E que esta sempiterna e incessante revolução de ciclos definidos, que alternadamente remove e restaura a verdadeira miséria e a enganosa bem-aventurança, é arquitetada para que Deus possa conhecer Suas próprias obras, visto que, por um lado, Ele não pode cessar de criar, e, por outro, não pode conhecer o número infinito de Suas criaturas, se sempre cria criaturas?
Quem, repito, pode escutar tais coisas? Quem pode aceitá-las ou tolerar que sejam ditas? Se fossem verdadeiras, não seria apenas mais prudente guardar silêncio a seu respeito, mas até (para me exprimir o melhor que posso) seria próprio da sabedoria não as conhecer. Pois, se no mundo futuro não nos lembrarmos destas coisas, e por este esquecimento formos bem-aventurados, por que haveríamos agora de aumentar a nossa miséria, já bastante pesada, com o conhecimento delas?
Se, por outro lado, o conhecimento delas nos for imposto no futuro, ao menos agora permaneçamos na ignorância, para que, na presente expectativa, possamos gozar de uma bem-aventurança que a realidade futura não nos há de conceder; pois, nesta vida, esperamos obter a vida eterna, mas, no mundo vindouro, viremos a descobri-la bem-aventurada, porém não eterna.
E se sustentam que ninguém pode alcançar a bem-aventurança do mundo vindouro, a não ser que nesta vida tenha sido instruído naqueles ciclos em que a bem-aventurança e a miséria se sucedem alternadamente, como afirmam eles que, quanto mais um homem ama a Deus, tanto mais prontamente alcança a bem-aventurança, eles que ensinam justamente aquilo que paralisa o próprio amor? Pois quem não seria mais frouxo e morno no seu amor por uma pessoa que ele pensa ser forçado a abandonar, e cuja verdade e sabedoria virá a odiar? E isto, ainda por cima, depois de ter atingido o mais elevado e bem-aventurado conhecimento dela de que é capaz?
Pode alguém ser fiel no seu amor, ainda que por um amigo humano, se sabe que está destinado a tornar-se seu inimigo? Deus nos livre de que haja qualquer verdade numa opinião que nos ameaça com uma miséria real que jamais terá fim, mas que será com frequência e sem fim interrompida por intervalos de felicidade enganosa. Pois que felicidade pode haver mais falaz e falsa do que aquela em cujo fulgor de verdade ainda ignoramos que seremos miseráveis, ou em cuja cidadela mais segura ainda tememos que o venhamos a ser?
Pois se, por um lado, devemos ignorar a calamidade que há de vir, então a nossa miséria presente não é tão míope, porque está segura da bem-aventurança vindoura. Se, por outro lado, o desastre que ameaça não nos está oculto no mundo vindouro, então o tempo de miséria, que enfim há de ser trocado por um estado de bem-aventurança, é passado pela alma mais felizmente do que o seu tempo de felicidade, que há de terminar num retorno à miséria. E assim, a nossa expectativa da infelicidade é feliz, mas a da felicidade é infeliz.
E portanto, como aqui sofremos males presentes e mais adiante tememos males iminentes, seria mais verdadeiro dizer que seremos sempre miseráveis do que dizer que podemos algum dia ser felizes.
Mas estas coisas são declaradas falsas pelo testemunho retumbante da religião e da verdade; pois a religião promete com verdade uma verdadeira bem-aventurança, da qual estaremos eternamente seguros e que não poderá ser interrompida por desastre algum. Mantenhamo-nos, pois, no caminho reto, que é Cristo, e, tendo-O por nosso Guia e Salvador, afastemo-nos de coração e de mente dos irreais e fúteis ciclos dos ímpios.
Porfírio, ainda que platônico, abjurou a opinião de sua escola, segundo a qual nesses ciclos as almas estão incessantemente partindo e retornando, seja por se haver impressionado com o exagero da ideia, seja por ter sido tornado mais sóbrio pelo seu conhecimento do cristianismo. Como mencionei no décimo livro, ele preferiu dizer que a alma, tendo sido enviada ao mundo para que conhecesse o mal e fosse dele purificada e libertada, jamais voltava a ser exposta a tal experiência depois de uma vez ter retornado ao Pai. E se ele abjurou os princípios de sua escola, quanto mais nós, cristãos, devemos abominar e evitar uma opinião tão infundada e hostil à nossa fé?
Mas, tendo nos desfeito desses ciclos e escapado deles, nenhuma necessidade nos compele a supor que o gênero humano não teve começo no tempo, sob o pretexto de que não há nada de novo na natureza que, por não sei que ciclos, não tenha existido em algum período anterior, e não venha a existir de novo no futuro. Pois, se a alma, uma vez libertada como nunca antes o fora, jamais há de retornar à miséria, então acontece em sua experiência algo que nunca antes aconteceu; e isto, na verdade, algo da maior importância, a saber, a entrada segura na felicidade eterna.
E se numa natureza imortal pode ocorrer uma novidade que jamais foi, nem jamais será, reproduzida por ciclo algum, por que se contesta que o mesmo possa ocorrer nas naturezas mortais? Se sustentam que a bem-aventurança não é experiência nova para a alma, mas apenas um retorno àquele estado em que ela esteve eternamente, então, ao menos, a sua libertação da miséria é algo novo, visto que, por sua própria afirmação, a miséria da qual ela é libertada é também, ela mesma, uma experiência nova.
E se esta nova experiência sobreveio por acaso, e não estava abrangida na ordem das coisas estabelecida pela Divina Providência, então onde estão aqueles ciclos determinados e medidos nos quais nada de novo acontece, mas todas as coisas se reproduzem tal como eram antes? Se, contudo, esta nova experiência estava abrangida naquela ordem providencial da natureza (quer a alma tenha sido exposta ao mal deste mundo em razão de disciplina, quer nele tenha caído por pecado), então é possível que aconteçam coisas novas que nunca antes aconteceram, e que, no entanto, não são estranhas à ordem da natureza.
E se a alma é capaz, por sua própria imprudência, de criar para si uma nova miséria, que não era imprevista pela Divina Providência, mas estava provida na ordem da natureza juntamente com a libertação dela, como podemos nós, mesmo com toda a temeridade da vaidade humana, presumir negar que Deus possa criar coisas novas, novas para o mundo, mas não para Ele, que Ele nunca antes criou, mas que, contudo, previu desde toda a eternidade?
Se dizem que é de fato verdade que as almas resgatadas não retornam mais à miséria, mas que, ainda assim, nada de novo acontece, visto que sempre houve, agora há e sempre haverá uma sucessão de almas resgatadas, devem ao menos conceder que, neste caso, há almas novas para as quais a miséria e a libertação dela são novas. Pois, se sustentam que aquelas almas, das quais novos homens são diariamente feitos (e de cujos corpos, se viveram sabiamente, são de tal modo libertadas que nunca retornam à miséria), não são novas, mas existem desde a eternidade, devem logicamente admitir que são infinitas.
Pois, por maior que fosse um número finito de almas, ele não bastaria para fazer perpetuamente homens novos desde a eternidade, homens cujas almas haveriam de ser eternamente libertadas deste estado mortal, sem jamais depois retornar a ele. E os nossos filósofos terão dificuldade em explicar como há um número infinito de almas numa ordem da natureza que eles exigem que seja finita, para que possa ser conhecida por Deus.
E agora que demolimos esses ciclos, que se supunha trazerem de volta a alma, em períodos fixos, às mesmas misérias, que pode parecer mais conforme à razão piedosa do que crer que é possível a Deus tanto criar coisas novas nunca antes criadas, como, ao fazê-lo, conservar inalterada a Sua vontade? Mas se o número de almas eternamente redimidas pode ou não ser continuamente aumentado, que o decidam os próprios filósofos, tão sutis em determinar onde o infinito não pode ser admitido. Quanto a nós, o nosso raciocínio se sustenta em qualquer dos dois casos.
Pois, se o número de almas pode ser indefinidamente aumentado, que razão há para negar que aquilo que nunca antes fora criado pudesse ser criado? Visto que o número de almas resgatadas nunca existiu antes, e, no entanto, não só foi feito uma vez, como jamais cessará de vir de novo à existência. Se, por outro lado, é mais conveniente que o número de almas eternamente resgatadas seja definido, e que este número jamais seja aumentado, ainda assim este número, qualquer que seja, certamente nunca existiu antes, e não pode aumentar e atingir a quantidade que designa sem ter algum começo; e este começo nunca antes existiu.
Para que, portanto, este começo pudesse haver, o primeiro homem foi criado.