A Cidade de Deus - Livro XII 19

Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade

Dos mundos sem fim, ou dos séculos dos séculos

Não me atrevo a determinar se Deus assim procede, e se estes tempos que se chamam "séculos dos séculos" estão unidos numa série contínua, e se sucedem uns aos outros com uma diversidade ordenada, deixando isentos de suas vicissitudes apenas aqueles que se acham libertos de sua miséria e que permanecem sem fim numa bem-aventurada imortalidade; ou se a eles se chama "séculos dos séculos" para que entendamos que os séculos permanecem imutáveis na inabalável sabedoria de Deus, e que são, por assim dizer, as causas eficientes daqueles séculos que se vão consumindo no tempo.
Possivelmente se emprega "séculos" por "século", de modo que por "séculos dos séculos" não se signifique nada diferente do que por "século do século", assim como por "céus dos céus" não se significa nada diferente do que por "céu do céu". Pois Deus chamou "Céu" ao firmamento, acima do qual estão as águas, e contudo diz o salmo: "Louvem o nome do Senhor as águas que estão sobre os céus." Qual destes dois sentidos devemos atribuir a "séculos dos séculos", ou se não haverá ainda algum outro sentido melhor, é questão profundíssima; e o assunto que ora tratamos não nos impede, entretanto, de adiar essa discussão, quer venhamos a poder determinar algo a respeito, quer apenas nos tornemos mais cautelosos com seu exame ulterior, de sorte a sermos dissuadidos de fazer quaisquer afirmações temerárias em matéria de tamanha obscuridade.
Pois no presente estamos disputando contra a opinião que afirma a existência daquelas revoluções periódicas pelas quais as mesmas coisas sempre retornam em intervalos de tempo.
Ora, qualquer destas suposições acerca dos "séculos dos séculos" que seja a verdadeira, de nada serve para fundamentar aqueles ciclos; pois, quer os séculos dos séculos não sejam uma repetição do mesmo mundo, mas mundos diversos que se sucedem uns aos outros numa conexão ordenada, permanecendo as almas resgatadas numa bem-aventurança plenamente assegurada, sem qualquer recorrência de miséria, quer os séculos dos séculos sejam as causas eternas que regem o que de ser e o que é no tempo, de um modo e de outro se segue igualmente que aqueles ciclos que fazem retornar as mesmas coisas não têm existência alguma; e nada os refuta mais cabalmente do que o fato da vida eterna dos santos.