A Cidade de Deus - Livro XII 18

Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade

Contra os que afirmam que as coisas que são infinitas não podem ser abarcadas pelo conhecimento de Deus

não podem ser abarcadas pelo conhecimento de Deus.
Quanto à sua outra afirmação, de que o conhecimento de Deus não pode abarcar as coisas infinitas, lhes resta sustentar, para que sondem até o fundo a sua impiedade, que Deus não conhece todos os números. Pois é coisa certíssima que eles são infinitos; uma vez que, não importa em que número suponhais que se ponha um fim, esse número pode ser, não direi acrescentado pela adição de mais um, mas, por maior que seja, e por mais vasta que seja a multidão de que ele é a expressão racional e científica, ainda assim pode ser não duplicado, mas até multiplicado.
Além disso, cada número é de tal modo definido por suas próprias propriedades, que não dois números iguais. São, portanto, ao mesmo tempo desiguais e diferentes uns dos outros; e, embora cada um seja simplesmente finito, coletivamente são infinitos. Acaso, então, Deus não conhece os números por causa dessa infinitude; e o seu conhecimento estende-se apenas até certa altura nos números, ao passo que dos restantes é ignorante? Quem é tão entregue ao próprio desvario que diga tal coisa?
Contudo, dificilmente poderão pretender pôr os números fora de questão, ou sustentar que eles nada têm a ver com o conhecimento de Deus; pois Platão, a sua grande autoridade, representa Deus como formando o mundo segundo princípios numéricos; e também em nossos livros se diz a Deus: "Tudo dispusestes em número, e medida, e peso." O profeta também diz: "Aquele que pelo número faz sair o seu exército." E o Salvador diz no Evangelho: "Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados." Longe esteja de nós, pois, duvidar que todo número é conhecido por Aquele "cujo entendimento", segundo o salmista, infinito." A infinitude do número, embora não haja numeração dos números infinitos, ainda assim não é incompreensível para Aquele cujo entendimento é infinito.
E assim, se tudo o que é abarcado é definido ou tornado finito pela compreensão daquele que o conhece, então toda infinitude é, de algum modo inefável, tornada finita para Deus, pois é abarcável pelo seu conhecimento. Por conseguinte, se a infinitude dos números não pode ser infinita para o conhecimento de Deus, pelo qual é abarcada, que somos nós, pobres criaturas, para presumir fixar limites ao seu conhecimento, e dizer que, a menos que as mesmas coisas temporais sejam repetidas pelas mesmas revoluções periódicas, Deus não pode nem preconhecer as suas criaturas a fim de fazê-las, nem conhecê-las depois de as ter feito?
Deus, cujo conhecimento é simplesmente múltiplo, e uniforme em sua variedade, abarca todos os incompreensíveis com uma compreensão tão incompreensível, que, embora tenha querido sempre fazer as suas obras posteriores novas e diferentes das que as precederam, não pôde produzi-las sem ordem e previsão, nem concebê-las de modo súbito, mas por sua eterna presciência.