A Cidade de Deus - Livro XII 17
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Que defesa a fé sadia faz acerca do desígnio e da vontade imutáveis de Deus, contra os raciocínios dos que sustentam que as obras de Deus se repetem eternamente em ciclos giratórios que restauram todas as coisas tais como eram
Disto também não tenho dúvida alguma: que antes de criado o primeiro homem, jamais houvera homem algum, nem este mesmo homem retornando por não sei que ciclos, e tendo cumprido não sei quantas revoluções, nem qualquer outro de natureza semelhante. Dessa crença não me apartam os argumentos filosóficos, entre os quais se tem por mais agudo aquele que se funda na afirmação de que o infinito não pode ser compreendido por nenhum modo de conhecimento. Por conseguinte, argumentam eles, Deus tem em sua própria mente concepções finitas de todas as coisas finitas que faz.
Ora, não se pode supor que a sua bondade jamais tenha estado ociosa; pois, se assim fosse, dever-se-ia atribuir-lhe um despertar para a atividade no tempo, a partir de uma eternidade passada de inação, como se ele se arrependesse de uma ociosidade que não teve princípio, e procedesse, portanto, a dar início à obra.
Sendo assim, dizem eles, é forçoso que as mesmas coisas sempre se repitam, e que, assim como passam, assim estejam destinadas a sempre retornar, quer, em meio a todas essas mudanças, o mundo permaneça o mesmo (o mundo que sempre existiu e que, contudo, foi criado), quer o mundo, nessas revoluções, perpetuamente se extinga e se renove; do contrário, se apontarmos para um tempo em que as obras de Deus tiveram início, crer-se-ia que ele considerou o seu ócio passado e eterno como inerte e indolente, e, por isso, o condenou e alterou, por desagradar-lhe a si mesmo.
Ora, se se supõe que Deus de fato sempre esteve fazendo coisas temporais, mas diferentes umas das outras, e umas após as outras, de modo que assim, por fim, chegou a fazer o homem, que jamais fizera antes, então pode parecer que ele fez o homem não com conhecimento (pois supõem que conhecimento algum pode abranger a sucessão infinita das criaturas), mas por ditame da hora, conforme lhe ocorreu naquele instante, com uma súbita e acidental mudança de propósito.
Por outro lado, dizem eles, se esses ciclos forem admitidos, e se supusermos que as mesmas coisas temporais se repetem, enquanto o mundo ou permanece idêntico através de todas essas rotações, ou então se extingue e se renova, então não se atribui a Deus nem o ócio preguiçoso de uma eternidade passada, nem uma criação precipitada e imprevista. E se as mesmas coisas não se repetem assim em ciclos, então não podem, por ciência alguma nem presciência alguma, ser abrangidas em sua infindável diversidade.
Ainda que a razão não pudesse refutá-las, a fé sorriria diante dessas argumentações, com as quais os ímpios se empenham por desviar do reto caminho a nossa simples piedade, para que andemos com eles "em círculo". Mas, com o auxílio do Senhor nosso Deus, até a razão, e com presteza bastante, despedaça esses círculos giratórios que a conjectura forja.
Pois o que especialmente desencaminha esses homens, a ponto de preferirem os seus próprios círculos à senda reta da verdade, é que medem pela sua própria inteligência humana, mutável e estreita, a mente divina, que é absolutamente imutável, infinitamente vasta e que, sem sucessão de pensamento, conta todas as coisas sem número.
De modo que se cumpre neles aquele dito do apóstolo, pois, "comparando-se a si mesmos consigo mesmos, não entendem". Pois, porque eles fazem, em virtude de um novo propósito, qualquer coisa nova que lhes tenha ocorrido fazer (sendo as suas mentes mutáveis), concluem que assim sucede com Deus; e assim comparam, não Deus (pois não podem conceber Deus, mas pensam em alguém semelhante a si mesmos quando pensam nele), não Deus, mas a si mesmos, e não com ele, mas consigo mesmos. Quanto a nós, não ousamos crer que Deus seja afetado de um modo quando opera, e de outro quando repousa.
Com efeito, dizer que ele de algum modo é afetado é um abuso de linguagem, pois implica que vem a surgir em sua natureza algo que antes ali não estava. Pois aquele que é afetado sofre uma ação, e tudo o que sofre uma ação é mutável. Em seu ócio, portanto, não há preguiça, indolência, inatividade; assim como em sua obra não há labor, esforço, fadiga. Ele pode agir enquanto repousa, e repousar enquanto age. Pode dar início a uma nova obra com um desígnio (não novo, mas) eterno; e o que não fez antes, não começa agora a fazer por se arrepender de seu repouso anterior.
Mas, quando se fala de seu repouso anterior e de sua operação posterior (e não sei como os homens podem entender essas coisas), este "anterior" e este "posterior" aplicam-se apenas às coisas criadas, as quais antes não existiam e depois vieram a existir. Em Deus, porém, o propósito anterior não é alterado nem apagado pelo propósito posterior e diverso, mas, por uma única e mesma vontade eterna e imutável, ele efetuou, a respeito das coisas que criou, tanto que antes, enquanto não eram, não fossem, quanto que depois, quando começaram a ser, viessem a existir.
E assim, talvez, ele mostre de modo bem notável, aos que têm olhos para tais coisas, quão independente é daquilo que faz, e quão por sua própria e gratuita bondade ele cria, visto que desde a eternidade habitou, sem criaturas, em bem-aventurança não menos perfeita.