A Cidade de Deus - Livro XII 16
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Como devemos entender a promessa divina da vida eterna, feita antes dos "tempos eternos"
Confesso que ignoro quantas idades se passaram antes que a raça humana fosse criada; contudo, não tenho dúvida alguma de que nenhuma coisa criada é coeterna com o Criador. Mas até mesmo o Apóstolo fala do tempo como eterno, e isso com referência não ao futuro, mas, o que é ainda mais surpreendente, ao passado. Pois ele diz: "Na esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos eternos, mas a seu tempo manifestou a sua palavra." Vedes que ele afirma terem existido, no passado, tempos eternos, os quais, todavia, não eram coeternos com Deus.
E uma vez que Deus, antes desses tempos eternos, não apenas existia, mas também "prometeu" a vida eterna, a qual manifestou nos seus próprios tempos (isto é, a seu tempo), que outra coisa é isso senão a sua palavra? Pois esta é a vida eterna. Mas, então, como prometeu? Pois a promessa foi feita aos homens, e estes não tinham existência alguma antes dos tempos eternos. Não significa isso que, na sua própria eternidade e na sua palavra coeterna, aquilo que havia de ser no seu próprio tempo já estava predestinado e fixado?