A Cidade de Deus - Livro XII 15

Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade

Se devemos crer que Deus, tendo sido sempre soberano Senhor, sempre teve criaturas sobre as quais exercia o seu domínio; e em que sentido podemos dizer que a criatura sempre existiu, sem contudo poder dizê-la coeterna

De minha parte, com efeito, assim como não ouso afirmar que houve algum tempo em que o Senhor Deus não fosse Senhor, do mesmo modo não devo duvidar de que o homem não tinha existência alguma antes do tempo, e que foi criado pela primeira vez no tempo. Mas, quando considero de que poderia Deus ser Senhor, se não houvesse sempre alguma criatura, recuo diante de qualquer afirmação, lembrando-me de minha própria insignificância e de que está escrito: "Que homem que possa conhecer o conselho de Deus? Ou quem é capaz de pensar o que quer o Senhor? Pois os pensamentos dos homens mortais são tímidos, e os nossos projetos, incertos.
Pois o corpo corruptível oprime a alma, e a tenda terrena pesa sobre a mente que medita sobre muitas coisas." Muitas coisas, por certo, medito eu nesta tenda terrena, porque a única coisa que é verdadeira entre as muitas, ou para além das muitas, não consigo encontrar.
Se, então, entre estes muitos pensamentos, eu disser que sempre houve criaturas para que delas fosse Senhor aquele que sempre é e sempre foi Senhor, mas que essas criaturas não foram sempre as mesmas, e sim se sucederam umas às outras (pois não quereríamos parecer dizer que alguma é coeterna ao Criador, afirmação condenada igualmente pela e pela razão), devo então acautelar-me para não cair no erro absurdo e ignorante de sustentar que, por essas sucessões e mudanças, as criaturas mortais sempre existiram, ao passo que as criaturas imortais não teriam começado a existir senão na data do nosso próprio mundo, quando os anjos foram criados; isto é, se ao menos os anjos forem designados por aquela luz que primeiro foi feita, ou, antes, por aquele céu do qual se diz: "No princípio criou Deus os céus e a terra." Os anjos, ao menos, não existiam antes de serem criados; pois, se dissermos que sempre existiram, pareceremos torná-los coeternos ao Criador.
Por outro lado, se eu disser que os anjos não foram criados no tempo, mas existiam antes de todos os tempos, como aqueles sobre os quais Deus, que sempre foi Soberano, exercia o seu domínio, então me perguntarão se, caso tivessem sido criados antes de todo tempo, eles, sendo criaturas, poderiam acaso existir sempre. Talvez se possa responder: Por que não sempre, visto que aquilo que está em todo o tempo pode muito propriamente ser dito "sempre"? Ora, é tão verdade que esses anjos existiram em todo o tempo, que mesmo antes de o tempo existir estavam criados; isto é, se ao menos o tempo começou com os céus, e os anjos existiram antes dos céus.
E se o tempo existia mesmo antes dos corpos celestes, não certamente marcado por horas, dias, meses e anos (pois essas medidas dos períodos do tempo, que comum e propriamente se chamam tempos, manifestamente começaram com o movimento dos corpos celestes, e por isso disse Deus, ao instituí-los: "Sirvam de sinais, e para as estações, e para os dias, e para os anos"), se, digo, o tempo existia antes desses corpos celestes por algum movimento mutável, cujas partes se sucediam umas às outras e não podiam existir simultaneamente, e se havia algum tal movimento entre os anjos que tornava necessária a existência do tempo, e que eles, desde a sua própria criação, estivessem sujeitos a essas mudanças temporais, então eles existiram em todo o tempo, pois o tempo veio a ser juntamente com eles.
E quem dirá que aquilo que existiu em todo o tempo não existiu sempre?
Mas, se eu der tal resposta, dir-me-ão: Como, então, não são eles coeternos ao Criador, se tanto Ele como eles sempre existiram? Como, até mesmo, se pode dizer que foram criados, se devemos entender que sempre existiram? Que responderemos a isto? Diremos que ambas as afirmações são verdadeiras? Que eles sempre existiram, visto que existiram em todo o tempo, sendo criados juntamente com o tempo, ou o tempo juntamente com eles, e contudo que também foram criados?
Pois, de modo semelhante, não negaremos que o próprio tempo foi criado, ainda que ninguém duvide de que o tempo existiu em todo o tempo; pois, se ele não existiu em todo o tempo, então houve um tempo em que não havia tempo. Mas a pessoa mais tola não poderia fazer tal afirmação. Pois podemos razoavelmente dizer que houve um tempo em que Roma não existia; houve um tempo em que Jerusalém não existia; houve um tempo em que Abraão não existia; houve um tempo em que o homem não existia, e assim por diante: em suma, se o mundo não foi feito no começo do tempo, mas depois de decorrido algum tempo, podemos dizer que houve um tempo em que o mundo não existia.
Mas dizer que houve um tempo em que o tempo não existia é tão absurdo quanto dizer que houve um homem quando não havia homem algum; ou que este mundo existiu quando este mundo não existia. Pois, se não nos referimos ao mesmo objeto, a forma de expressão pode ser usada, como: havia outro homem quando este homem não existia. Assim, podemos razoavelmente dizer que havia outro tempo quando este tempo não existia; mas nem o mais simplório poderia dizer que houve um tempo em que não havia tempo. Assim como, pois, dizemos que o tempo foi criado, embora também digamos que sempre existiu, visto que em todo o tempo o tempo existiu, do mesmo modo não se segue que, se os anjos sempre existiram, não foram por isso criados.
Pois dizemos que eles sempre existiram, porque existiram em todo o tempo; e dizemos que existiram em todo o tempo, porque o próprio tempo de modo algum poderia existir sem eles. Pois, onde não criatura cujos movimentos mutáveis admitam sucessão, ali não pode de modo nenhum haver tempo. E, por conseguinte, ainda que sempre tenham existido, foram criados; nem, se sempre existiram, são por isso coeternos ao Criador. Pois Ele sempre existiu em imutável eternidade; ao passo que eles foram criados, e se diz que sempre existiram, porque existiram em todo o tempo, sendo o tempo impossível sem a criatura.
Mas o tempo, passando pela sua mutabilidade, não pode ser coeterno à imutável eternidade. E, por conseguinte, embora a imortalidade dos anjos não passe no tempo, não se torne passado como se agora não fosse, nem tenha um futuro como se ainda não fosse, contudo os seus movimentos, que são a base do tempo, passam do futuro ao passado; e por isso não podem ser coeternos ao Criador, em cujo movimento não podemos dizer que tenha havido aquilo que agora não é, ou que venha a ser aquilo que ainda não é.
Portanto, se Deus sempre foi Senhor, sempre teve criaturas sob o seu domínio: criaturas, contudo, não geradas dele, mas criadas por Ele do nada; nem coeternas a Ele, pois Ele existia antes delas, embora em tempo nenhum sem elas, porque as precedeu não pelo decurso do tempo, mas pela sua permanente eternidade. Mas, se eu der esta resposta aos que indagam como Ele foi sempre Criador, sempre Senhor, se não houvesse sempre uma criação que lhe estivesse sujeita; ou como esta foi criada, e não antes coeterna ao seu Criador, se sempre existiu, temo que me acusem de afirmar temerariamente o que não sei, em vez de ensinar o que sei.
Volto, portanto, àquilo que o nosso Criador houve por bem que conhecêssemos; e aquelas coisas que Ele permitiu aos homens mais capazes conhecer nesta vida, ou que reservou para serem conhecidas na vida futura pelos santos aperfeiçoados, reconheço estarem além da minha capacidade. Mas julguei correto discutir estas matérias sem fazer afirmações categóricas, para que os que lerem sejam advertidos a abster-se de questões arriscadas, e não se julguem aptos para tudo.
Antes, procurem eles obedecer à salutar exortação do apóstolo, quando diz: "Pois, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo mais alto do que convém pensar; mas que pense com sobriedade, conforme a medida da que Deus repartiu a cada um." Pois, se um menino recebe alimento adequado à sua força, torna-se capaz, à medida que cresce, de tomar mais; mas, se a sua força e capacidade forem sobrecarregadas, ele definha em vez de crescer.