A Cidade de Deus - Livro XI 8

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

O que devemos entender sobre o descanso de Deus no sétimo dia, depois da obra dos seis dias

Quando se diz que Deus descansou no sétimo dia de todas as suas obras, e o santificou, não devemos conceber isso de modo pueril, como se o trabalho fosse fadiga para Deus, que "falou e tudo foi feito", falou pela palavra espiritual e eterna, não pela palavra audível e transitória. Mas o descanso de Deus significa o descanso daqueles que descansam em Deus, assim como a alegria de uma casa significa a alegria dos que estão na casa e se alegram, ainda que não seja a casa, mas outra coisa, a causa da alegria. Quanto mais inteligível é, então, tal expressão, se a própria casa, por sua própria beleza, torna alegres os seus habitantes!
Pois neste caso não a chamamos alegre apenas por aquela figura de linguagem em que aquilo que contém é tomado por aquilo que é contido (como quando dizemos "os teatros aplaudem", "os prados mugem", querendo dizer que os homens, num caso, aplaudem, e os bois, no outro, mugem), mas também por aquela figura em que a causa é mencionada como se fosse o efeito, como quando se diz que uma carta é alegre, porque torna alegres os seus leitores. Por isso, do modo mais apropriado, a narrativa sagrada afirma que Deus descansou, querendo com isso significar que descansam aqueles que estão nele, e a quem ele faz descansar.
E isto a narrativa profética também promete aos homens a quem ela fala, e para os quais foi escrita: que eles próprios, depois daquelas boas obras que Deus faz neles e por meio deles, se conseguiram, pela fé, aproximar-se de Deus nesta vida, gozarão nele o descanso eterno. Isto foi prefigurado ao antigo povo de Deus pelo descanso ordenado na sua lei do sábado, da qual, em seu devido lugar, falarei mais amplamente.