A Cidade de Deus - Livro XI 7

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Da natureza dos primeiros dias, dos quais se diz que tiveram manhã e tarde antes que houvesse sol

Vemos, de fato, que os nossos dias comuns não têm tarde senão pelo pôr do sol, nem manhã senão pelo nascer do sol; mas os três primeiros dias de todos transcorreram sem sol, visto que se relata ter ele sido feito no quarto dia. E, antes de tudo, com efeito, a luz foi feita pela palavra de Deus, e Deus, conforme lemos, a separou das trevas, e chamou Dia à luz, e Noite às trevas; mas que espécie de luz era essa, e por qual movimento periódico ela produziu a tarde e a manhã, ultrapassa o alcance dos nossos sentidos; nem podemos compreender como foi, e contudo devemos crê-lo sem hesitação.
Pois ou era alguma luz material, quer procedendo das partes superiores do mundo, distantes da nossa vista, quer do lugar onde depois o sol foi acendido; ou então, sob o nome de luz, significava-se a cidade santa, composta de anjos santos e de espíritos bem-aventurados, a cidade da qual diz o apóstolo: "A Jerusalém que está acima é a nossa mãe eterna no céu"; e em outro lugar: "Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não somos da noite nem das trevas." Contudo, sob certos aspectos, podemos apropriadamente falar de uma manhã e de uma tarde também deste dia.
Pois o conhecimento da criatura é, em comparação com o conhecimento do Criador, apenas um crepúsculo; e assim ele rompe em alvorada e desponta em manhã quando a criatura é atraída ao louvor e ao amor do Criador; e a noite jamais cai quando o Criador não é abandonado pelo amor da criatura. Em suma, a Escritura, quando se propõe a narrar aqueles dias em ordem, nunca menciona a palavra noite. Nunca diz "Houve noite", mas "A tarde e a manhã foram o primeiro dia". Assim do segundo e dos demais.
E, de fato, o conhecimento das coisas criadas contempladas em si mesmas é, por assim dizer, mais descorado do que quando elas são vistas na sabedoria de Deus, isto é, na arte pela qual foram feitas. Portanto, a tarde é figura mais conveniente do que a noite; e contudo, como eu disse, a manhã retorna quando a criatura retorna ao louvor e ao amor do Criador.
Quando isso ocorre no conhecimento de si mesma, esse é o primeiro dia; quando no conhecimento do firmamento, que é o nome dado ao céu entre as águas de cima e as de baixo, esse é o segundo dia; quando no conhecimento da terra, do mar e de todas as coisas que brotam da terra, esse é o terceiro dia; quando no conhecimento dos luzeiros maior e menor, e de todas as estrelas, esse é o quarto dia; quando no conhecimento de todos os animais que nadam nas águas e que voam pelo ar, esse é o quinto dia; quando no conhecimento de todos os animais que vivem sobre a terra, e do próprio homem, esse é o sexto dia.