A Cidade de Deus - Livro XI 6
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Que o mundo e o tempo tiveram um único princípio, e nenhum precedeu o outro
Pois se a eternidade e o tempo se distinguem corretamente por isto, que o tempo não existe sem algum movimento e transição, ao passo que na eternidade não há nenhuma mudança, quem não vê que não poderia ter havido tempo se alguma criatura não tivesse sido feita, a qual, por algum movimento, pudesse dar origem à mudança (e as diversas partes desse movimento e dessa mudança, não podendo ser simultâneas, sucedem-se umas às outras), e assim, nesses intervalos de duração mais curtos ou mais longos, o tempo começaria?
Visto, então, que Deus, em cuja eternidade não há mudança alguma, é o Criador e Ordenador do tempo, não vejo como se possa dizer que Ele criou o mundo depois de transcorridos espaços de tempo, a menos que se afirme que, antes do mundo, existia alguma criatura por cujo movimento o tempo pudesse passar.
E se as sagradas e infalíveis Escrituras dizem que no princípio Deus criou os céus e a terra, a fim de que se compreenda que Ele nada havia feito antes (pois, se tivesse feito alguma coisa antes do restante, dessa coisa se diria antes que fora feita "no princípio"), então certamente o mundo foi feito não no tempo, mas simultaneamente com o tempo. Pois aquilo que é feito no tempo é feito tanto depois quanto antes de algum tempo: depois daquilo que é passado, antes daquilo que é futuro. Mas nada poderia então ser passado, pois não havia criatura alguma por cujos movimentos se pudesse medir a sua duração.
Mas simultaneamente com o tempo foi feito o mundo, se na criação do mundo foram criados a mudança e o movimento, como parece evidente pela ordem dos primeiros seis ou sete dias. Pois nesses dias contam-se a manhã e a tarde, até que, no sexto dia, todas as coisas que Deus então fez foram acabadas, e no sétimo o repouso de Deus foi misteriosa e sublimemente assinalado. Que espécie de dias eram esses, é extremamente difícil, ou talvez impossível para nós conceber, e muito mais dizê-lo!