A Cidade de Deus - Livro XI 4

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Que o mundo não existe sem princípio, nem foi criado por um novo decreto de Deus, pelo qual Ele depois passasse a querer o que antes não queria

De todas as coisas visíveis, a maior é o mundo; de todas as invisíveis, o maior é Deus. Mas que o mundo existe, nós o vemos; que Deus existe, nós o cremos. Que Deus fez o mundo, de ninguém o podemos crer com mais segurança do que do próprio Deus. Ora, onde o ouvimos? Em parte alguma de modo mais distinto do que nas Sagradas Escrituras, onde o seu profeta disse: "No princípio criou Deus os céus e a terra." Estaria o profeta presente quando Deus fez os céus e a terra?
Não; mas ali estava a sabedoria de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, e a sabedoria insinua-se nas almas santas, e faz delas amigas de Deus e seus profetas, e silenciosamente as informa de suas obras. São também instruídas pelos anjos de Deus, que sempre contemplam a face do Pai, e anunciam a sua vontade a quem convém. Desses profetas foi aquele que disse e escreveu: "No princípio criou Deus os céus e a terra." E tão idôneo testemunho foi ele de Deus, que o mesmo Espírito de Deus, que lhe revelou estas coisas, o capacitou também, tanto tempo antes, a predizer que igualmente a nossa haveria de surgir.
Mas por que escolheu Deus criar então os céus e a terra, que até aquele tempo não havia feito? Se aqueles que levantam esta questão pretendem demonstrar que o mundo é eterno e sem princípio, e que, por conseguinte, não foi feito por Deus, estranhamente se enganam, e deliram na incurável loucura da impiedade.
Pois, ainda que as vozes dos profetas se calassem, o próprio mundo, por suas mudanças e movimentos bem ordenados, e pela bela aparência de todas as coisas visíveis, um testemunho seu, tanto de que foi criado, como também de que não poderia ter sido criado senão por Deus, cuja grandeza e beleza são inefáveis e invisíveis.
Quanto àqueles que admitem, de fato, que foi feito por Deus, mas lhe atribuem não um princípio temporal, e sim apenas um princípio de criação, de modo que, por uma via dificilmente inteligível, o mundo houvesse sempre existido como mundo criado, fazem uma afirmação que lhes parece defender Deus da acusação de precipitação arbitrária, ou de conceber subitamente a ideia de criar o mundo como ideia inteiramente nova, ou de mudar casualmente a sua vontade, embora Ele seja imutável.
Mas não vejo como esta suposição deles possa sustentar-se em outros aspectos, e principalmente no que toca à alma; pois, se sustentam que ela é coeterna com Deus, ficarão de todo incapazes de explicar de onde lhe sobreveio uma nova miséria, que durante uma eternidade anterior não havia existido. Pois, se dissessem que a sua felicidade e a sua miséria se alternam incessantemente, teriam de dizer, ademais, que essa alternância continuará para sempre; donde resultará este absurdo: que, embora a alma seja chamada bem-aventurada, não o é neste ponto, que prevê a sua própria miséria e desgraça.
E, contudo, se ela não a prevê, e supõe que não será nem desgraçada nem miserável, mas sempre bem-aventurada, então é bem-aventurada porque está enganada; e não se pode fazer afirmação mais insensata.
Mas, se a ideia deles é que a miséria da alma se alternou com a sua bem-aventurança durante as eras da eternidade passada, mas que agora, uma vez libertada a alma, não tornará daqui em diante mais à miséria, são ainda assim de parecer que ela nunca foi verdadeiramente bem-aventurada antes, mas começa enfim a gozar de uma felicidade nova e incerta; isto é, têm de reconhecer que algo de novo, e isso uma coisa importante e assinalada, acontece à alma, que jamais em toda uma eternidade passada lhe havia acontecido antes.
E, se negam que o propósito eterno de Deus incluísse esta nova experiência da alma, negam que Ele seja o Autor da sua bem-aventurança, o que é impiedade indizível. Se, por outro lado, dizem que a futura bem-aventurança da alma é resultado de um novo decreto de Deus, como mostrarão que Deus não está sujeito àquela mutabilidade que lhes desagrada?
Ademais, se reconhecem que ela foi criada no tempo, mas jamais perecerá no tempo, que tem, como o número, princípio mas não fim, e que, portanto, tendo uma vez provado a miséria, e dela sido libertada, jamais tornará a ela, certamente admitirão que isto se sem violação alguma do imutável conselho de Deus. Que creiam, então, de modo semelhante a respeito do mundo, que ele também pôde ser feito no tempo, e que, contudo, Deus, ao fazê-lo, não alterou o seu desígnio eterno.