A Cidade de Deus - Livro XI 33
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Das duas comunidades de anjos, diferentes e dessemelhantes, que não impropriamente são designadas pelos nomes de luz e trevas
Que certos anjos pecaram e foram lançados às partes mais baixas deste mundo, onde estão, por assim dizer, encarcerados até sua condenação final no dia do juízo, o apóstolo Pedro o declara com toda a clareza, quando diz que "Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo". Quem, então, poderá duvidar de que Deus, seja na presciência, seja no ato, fez separação entre estes e os demais?
E quem disputará que os demais sejam justamente chamados de "luz"? Pois até nós, que ainda vivemos pela fé, apenas esperando e ainda não desfrutando da igualdade com eles, já somos chamados de "luz" pelo apóstolo: "Porque, em outro tempo, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor". Quanto a esses anjos apóstatas, porém, todos os que entendem ou creem que eles são piores do que os homens incrédulos bem sabem que são chamados de "trevas". Por isso, embora luz e trevas devam ser tomadas em seu sentido literal nestas passagens do Gênesis em que se diz: "Disse Deus: Haja luz, e houve luz", e "Deus separou a luz das trevas", contudo, de nossa parte, entendemos por elas estas duas sociedades de anjos: uma que desfruta de Deus, a outra inchada de soberba; uma à qual se diz: "Louvai-o, todos os seus anjos"; a outra cujo príncipe diz: "Todas estas coisas te darei, se, prostrado, me adorares"; uma ardendo com o santo amor de Deus, a outra fétida com a impura cobiça do próprio engrandecimento.
E visto que, como está escrito, "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes", podemos dizer: uma habitando no céu dos céus, a outra de lá expulsa e enfurecida pelas regiões inferiores do ar; uma tranquila no resplendor da piedade, a outra agitada pela tempestade de desejos que a obscurecem; uma, segundo o beneplácito de Deus, socorrendo com ternura e punindo com justiça; a outra, impelida por sua própria soberba, fervendo com a cobiça de subjugar e ferir; uma ministra da bondade de Deus até onde lhe apraz fazer o bem, a outra contida pelo poder de Deus para que não faça o mal que faria; a primeira rindo-se da segunda quando esta, contra a vontade, faz o bem por suas perseguições; a segunda invejando a primeira quando esta recolhe os seus peregrinos.
Essas duas comunidades angélicas, pois, dessemelhantes e contrárias uma à outra, uma boa tanto por natureza quanto por vontade reta, a outra também boa por natureza, mas depravada pela vontade, assim como são apresentadas em outras passagens mais explícitas da sagrada Escritura, do mesmo modo penso que são mencionadas neste livro do Gênesis sob os nomes de luz e trevas; e, ainda que talvez o autor tivesse um sentido diferente, contudo nossa discussão da linguagem obscura não foi tempo perdido; pois, embora não tenhamos podido descobrir o seu sentido, ainda assim nos mantivemos fiéis à regra da fé, suficientemente conhecida pelos fiéis a partir de outras passagens de igual autoridade.
Pois, embora sejam as obras materiais de Deus que aqui se mencionam, elas certamente têm uma semelhança com as espirituais, de modo que Paulo pode dizer: "Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não somos da noite nem das trevas". Se, por outro lado, o autor do Gênesis viu nas palavras o que nós vemos, então nossa discussão alcança esta conclusão mais satisfatória: que o homem de Deus, tão eminente e divinamente sábio, ou antes, que o Espírito de Deus, que por meio dele registrou as obras de Deus concluídas no sexto dia, pode ser tido como não tendo omitido toda menção aos anjos, seja porque os incluiu nas palavras "no princípio", visto que os fez primeiro, seja, o que parece mais provável, porque os fez no Verbo unigênito.
E, sob estes nomes de céu e terra, é significada toda a criação, seja como dividida em espiritual e material, o que parece mais provável, seja nas duas grandes partes do mundo em que se contêm todas as coisas criadas, de modo que, primeiro de tudo, a criação é apresentada em conjunto, e depois suas partes são enumeradas segundo o número místico dos dias.