A Cidade de Deus - Livro XI 32

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Sobre a opinião de que os anjos foram criados antes do mundo

Mas, se alguém se opuser à nossa opinião e disser que não se faz referência aos santos anjos quando se diz "Haja luz, e houve luz"; se supuser ou ensinar que ali se entende alguma luz material, então criada pela primeira vez, e que os anjos foram criados não apenas antes do firmamento que divide as águas e que recebe o nome de "céu", mas também antes do tempo significado nas palavras "No princípio criou Deus o céu e a terra"; se alegar que esta frase, "No princípio", não quer dizer que nada foi feito antes (pois os anjos o foram), mas que Deus fez todas as coisas por sua Sabedoria ou Verbo, que na Escritura é chamado "o Princípio", como Ele mesmo, no Evangelho, respondeu aos judeus quando lhe perguntaram quem era, que era o Princípio: não contestarei o ponto, sobretudo porque me a mais viva satisfação encontrar a Trindade celebrada no próprio início do livro do Gênesis.
Pois, tendo dito "No princípio criou Deus o céu e a terra", com o sentido de que o Pai os fez no Filho (como atesta o salmo, onde diz "Quão variadas são as vossas obras, ó Senhor! Todas as fizestes com Sabedoria"), faz-se logo depois, com toda propriedade, menção também do Espírito Santo.
Pois, quando nos foi dito que espécie de terra Deus criou no princípio, ou qual era a massa ou matéria que Deus, sob o nome de "céu e terra", havia provido para a construção do mundo, como se conta nas palavras acrescentadas "E a terra estava sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo", então, para completar a menção da Trindade, acrescenta-se imediatamente "E o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas". Tome-o, pois, cada um como lhe aprouver; porque é uma passagem tão profunda que bem pode sugerir, para o exercício da perspicácia do leitor, muitas opiniões, e nenhuma delas se afastando muito da regra da fé.
Ao mesmo tempo, que ninguém duvide de que os santos anjos, em suas moradas celestes, ainda que não sejam, de fato, coeternos com Deus, estão contudo seguros e certos da eterna e verdadeira felicidade. O Senhor ensina que à companhia deles pertencem os seus pequeninos; e não diz "Serão iguais aos anjos de Deus", mas mostra também que bem-aventurada contemplação os próprios anjos desfrutam, dizendo "Vede, não desprezeis nenhum destes pequeninos; porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus".