A Cidade de Deus - Livro XI 31
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Do sétimo dia, no qual se celebram a plenitude e o repouso
Mas, no sétimo dia (isto é, no mesmo dia repetido sete vezes, número que também é perfeito, embora por outra razão), apresenta-se o repouso de Deus, e então, igualmente, ouvimos pela primeira vez falar de sua santificação. De modo que Deus não quis santificar este dia por suas obras, mas por seu repouso, que não tem tarde, pois não é uma criatura; de sorte que, sendo conhecido de um modo no Verbo de Deus e de outro em si mesmo, viesse a constituir um duplo conhecimento, o da luz do dia e o do crepúsculo (o dia e a tarde).
Muito mais se poderia dizer sobre a perfeição do número sete, mas este livro já está demasiado longo, e temo que eu pareça aproveitar a ocasião para exibir meu parco e superficial conhecimento de ciência mais puerilmente do que com proveito. Devo falar, portanto, com moderação e dignidade, para que, ao seguir com excessivo afinco o "número", não seja acusado de esquecer o "peso" e a "medida". Baste aqui dizer que três é o primeiro número inteiro que é ímpar, e quatro o primeiro que é par, e que destes dois se compõe o sete.
Por essa razão, o sete é muitas vezes posto no lugar de todos os números em conjunto, como em: "O justo cai sete vezes, e torna a levantar-se", isto é, por mais vezes que caia, ele não perecerá (e isto se deve entender não dos pecados, mas das aflições que conduzem à humildade). E ainda: "Sete vezes ao dia te louvarei", o que em outro lugar se exprime assim: "Bendirei ao Senhor em todo o tempo". E muitos exemplos semelhantes se encontram nas autoridades divinas, nos quais o número sete é, como eu disse, comumente usado para exprimir a totalidade, ou a plenitude, de algo.
E assim o Espírito Santo, de quem o Senhor diz: "Ele vos ensinará toda a verdade", é significado por este número. Nele está o repouso de Deus, o repouso que o seu povo encontra nele. Pois o repouso está no todo, isto é, na perfeita plenitude, ao passo que na parte há trabalho. E desse modo trabalhamos enquanto conhecemos em parte; "mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será abolido". É até mesmo com esforço que perscrutamos as próprias Escrituras.
Mas os santos anjos, por cuja sociedade e assembleia suspiramos durante esta nossa fatigante peregrinação, assim como já habitam em seu lar eterno, do mesmo modo desfrutam de perfeita facilidade de conhecimento e de felicidade de repouso. É sem dificuldade que nos socorrem, pois seus movimentos espirituais, puros e livres, não lhes custam esforço algum.