A Cidade de Deus - Livro XI 28

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Se devemos amar o próprio amor com que amamos a nossa existência e o seu conhecimento, para que assim nos assemelhemos mais à imagem da divina Trindade

Dissemos quanto o escopo desta obra exige acerca destas duas coisas, a saber, a nossa existência e o conhecimento que dela temos, e quanto elas são amadas por nós, e como se encontra, mesmo nas criaturas inferiores, uma certa semelhança destas coisas, ainda que com diferença. Resta-nos falar do amor com que tais coisas são amadas, para determinar se este próprio amor é amado. E sem dúvida o é; e eis a prova. Pois nos homens que são justamente amados, é antes o próprio amor que se ama; com efeito, não se chama justamente bom o homem que sabe o que é o bem, mas aquele que o ama.
Não é, então, evidente que amamos em nós mesmos o próprio amor com que amamos qualquer bem que amamos? Pois também um amor com que amamos aquilo que não devíamos amar; e este amor é odiado por aquele que ama o amor com que ama o que deve ser amado. Porque é perfeitamente possível que ambos existam num homem. E esta coexistência é boa para o homem, a fim de que este amor que conduz a viver bem cresça, e o outro, que nos leva ao mal, diminua, até que toda a nossa vida seja perfeitamente sarada e transmudada em bem.
Pois, se fôssemos animais, amaríamos a vida carnal e sensual, e esse seria o nosso bem suficiente; e quando nos fosse bem a esse respeito, nada buscaríamos além. Do mesmo modo, se fôssemos árvores, não poderíamos, na verdade, no sentido estrito da palavra, amar coisa alguma; contudo, pareceria que, de certo modo, ansiávamos por aquilo pelo qual nos tornaríamos mais abundante e exuberantemente frutíferos. Se fôssemos pedras, ou ondas, ou vento, ou chama, ou qualquer coisa desse gênero, careceríamos, sem dúvida, tanto de sensação quanto de vida, e contudo possuiríamos uma espécie de atração para a nossa própria posição própria e ordem natural.
Pois o peso específico dos corpos é, por assim dizer, o seu amor, quer sejam levados para baixo pelo seu peso, quer para cima pela sua leveza. Com efeito, o corpo é arrastado pela sua gravidade, como o espírito pelo amor, para onde quer que seja arrastado.
Mas nós somos homens, criados à imagem do nosso Criador, cuja eternidade é verdadeira, e cuja verdade é eterna, cujo amor é eterno e verdadeiro, e que é Ele mesmo a eterna, verdadeira e adorável Trindade, sem confusão, sem separação; e, portanto, ao percorrermos todas as obras que Ele estabeleceu, podemos detectar, por assim dizer, as suas pegadas, ora mais ora menos distintas mesmo naquelas coisas que estão abaixo de nós, visto que elas não poderiam sequer existir, nem revestir-se de qualquer forma, nem seguir e observar qualquer lei, se não tivessem sido feitas por Aquele que supremamente é, e é supremamente bom e supremamente sábio; contudo, contemplando em nós mesmos a sua imagem, voltemos a nós, como aquele filho mais novo do evangelho, e levantemo-nos e retornemos Àquele de quem, pelo nosso pecado, nos havíamos afastado.
Ali o nosso ser não terá morte, o nosso conhecimento não terá erro, o nosso amor não terá infortúnio. Mas agora, embora estejamos certos de que possuímos estas três coisas, não pelo testemunho de outros, mas pela nossa própria consciência da sua presença, e porque as vemos com a nossa mais verídica visão interior, contudo, como não podemos por nós mesmos saber por quanto tempo elas hão de durar, e se jamais cessarão de ser, e a que resultado conduzirá o seu uso bom ou mau, buscamos outros que possam instruir-nos acerca destas coisas, se ainda não os encontramos.
Da fidedignidade destas testemunhas haverá oportunidade de falar, não agora, mas em seguida. Mas neste livro prossigamos, como começamos, com a ajuda de Deus, a falar da cidade de Deus, não no seu estado de peregrinação e mortalidade, mas tal como ela existe para sempre imortal nos céus, isto é, falemos dos santos anjos que mantêm a sua fidelidade a Deus, que nunca foram, nem jamais serão, apóstatas, entre os quais e aqueles que abandonaram a luz eterna e se tornaram trevas Deus, como dissemos, fez desde o princípio uma separação.