A Cidade de Deus - Livro XI 29

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Do conhecimento pelo qual os santos anjos conhecem a Deus em sua essência, e pelo qual veem as causas de suas obras na arte do Artífice, antes de as verem nas obras do artesão

Aqueles santos anjos chegam ao conhecimento de Deus não por palavras audíveis, mas pela presença, em suas almas, da verdade imutável, isto é, do Verbo unigênito de Deus; e conhecem o próprio Verbo, e o Pai, e o Espírito Santo de ambos, e que esta Trindade é indivisível, e que as três pessoas que a compõem são uma substância, e que não três Deuses, mas um Deus; e isto eles de tal modo conhecem que lhes é melhor compreendido do que nós o somos por nós mesmos.
Assim, também, conhecem igualmente a criatura, não nela mesma, mas por este modo melhor, na sabedoria de Deus, como que na arte pela qual foi criada; e, por consequência, conhecem-se a si mesmos melhor em Deus do que em si próprios, ainda que possuam também este último conhecimento. Pois foram criados, e são diferentes de seu Criador. Nele, portanto, têm como que um conhecimento do meio-dia; em si mesmos, um conhecimento crepuscular, segundo as explicações que demos anteriormente.
Pois grande diferença entre conhecer uma coisa no projeto em conformidade com o qual foi feita e conhecê-la nela mesma: por exemplo, a retidão das linhas e a correção das figuras são conhecidas de um modo quando concebidas mentalmente, de outro quando traçadas no papel; e a justiça é conhecida de um modo na verdade imutável, de outro no espírito de um homem justo.
Assim se com todas as demais coisas: como o firmamento entre as águas de cima e as de baixo, que foi chamado céu; o ajuntamento das águas inferiores e o aparecimento da terra seca, e a produção das plantas e das árvores; a criação do sol, da lua e das estrelas; e dos animais saídos das águas, as aves, os peixes e os monstros do abismo; e de tudo o que anda ou rasteja sobre a terra, e do próprio homem, que sobreleva tudo o que na terra: todas estas coisas são conhecidas de um modo pelos anjos no Verbo de Deus, no qual veem as causas e razões eternamente permanentes segundo as quais foram feitas, e de outro modo nelas mesmas; no primeiro, com um conhecimento mais claro; no segundo, com um conhecimento mais obscuro, e antes das obras nuas do que do projeto.
Contudo, quando estas obras são referidas ao louvor e à adoração do próprio Criador, é como se a manhã raiasse nas mentes daqueles que as contemplam.