A Cidade de Deus - Livro XI 27
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Da existência, do conhecimento dela e do amor de ambos
E, na verdade, o próprio fato de existir é, por certo encanto natural, tão aprazível que mesmo os infelizes, por nenhuma outra razão, recusam-se a perecer; e, quando sentem que são infelizes, não desejam que eles mesmos sejam aniquilados, mas sim que sua miséria o seja.
Tomai mesmo aqueles que, tanto em sua própria estima quanto de fato, são totalmente infelizes, e que assim são reputados, não apenas pelos sábios por causa de sua insensatez, mas também por aqueles que se consideram bem-aventurados e que os julgam infelizes porque são pobres e desvalidos: se alguém desse a esses homens uma imortalidade na qual sua miséria fosse imortal, e lhes oferecesse a alternativa de que, caso recuassem diante de existir eternamente na mesma miséria, pudessem ser aniquilados e não existir em parte alguma, nem em condição alguma, no mesmo instante eles, com alegria, ou melhor, com exultação, escolheriam existir sempre, ainda que em tal condição, antes que não existir de modo algum.
O conhecido sentimento de tais homens dá testemunho disso. Pois, quando vemos que temem morrer e preferem viver em tamanho infortúnio a pôr-lhe fim pela morte, não é bastante evidente quanto a natureza recua diante da aniquilação? E, por conseguinte, quando sabem que devem morrer, buscam, como um grande benefício, que lhes seja concedida esta misericórdia: poder viver um pouco mais na mesma miséria e adiar pôr-lhe fim pela morte. E assim provam, indubitavelmente, com que feliz presteza aceitariam a imortalidade, ainda que ela lhes assegurasse uma destruição sem fim.
E que? Não testemunham também todos os animais irracionais, aos quais tais cálculos são desconhecidos, desde os enormes dragões até os mínimos vermes, que desejam existir e que, por isso, fogem da morte por todo movimento que esteja em seu poder? Ora, até mesmo as plantas e os arbustos, que não têm a vida que lhes permitiria evitar a destruição por movimentos que possamos ver, não buscam todos, a seu modo, conservar sua existência, enraizando-se cada vez mais profundamente na terra, para que assim possam haurir nutrição e lançar ramos sadios em direção ao céu?
Enfim, até mesmo os corpos sem vida, que carecem não apenas de sensação, mas também de vida seminal, ou buscam o ar superior, ou afundam nas profundezas, ou ficam equilibrados numa posição intermediária, para que possam preservar sua existência naquela situação em que podem existir do modo mais conforme à sua natureza.
E quanto a natureza humana ama o conhecimento de sua própria existência, e como recua diante de ser enganada, compreender-se-á suficientemente a partir deste fato: que todo homem prefere afligir-se em mente sã a alegrar-se na loucura. E este grande e admirável instinto pertence somente ao homem, dentre todos os animais; pois, embora alguns deles tenham vista mais aguda do que a nossa para a luz deste mundo, não podem alcançar aquela luz espiritual com a qual nossa mente é de algum modo irradiada, de sorte que podemos formar juízos retos sobre todas as coisas. Pois nosso poder de julgar é proporcional à nossa recepção dessa luz.
Não obstante, os animais irracionais, embora não tenham conhecimento, têm certamente algo que se assemelha ao conhecimento; ao passo que as demais coisas materiais são ditas sensíveis não porque tenham sentidos, mas porque são os objetos de nossos sentidos. Contudo, entre as plantas, sua nutrição e geração têm alguma semelhança com a vida sensível. Todavia, tanto estas quanto todas as coisas materiais têm suas causas ocultas em sua natureza; mas suas formas exteriores, que conferem beleza a esta estrutura visível do mundo, são percebidas por nossos sentidos, de modo que parecem querer compensar sua própria falta de conhecimento provendo-nos a nós de conhecimento.
Mas nós as percebemos por nossos sentidos corporais de tal modo que não as julgamos por esses sentidos. Pois temos outro sentido, em muito superior, pertencente ao homem interior, pelo qual percebemos quais coisas são justas e quais são injustas: justas por meio de uma ideia inteligível, injustas pela ausência dela. Este sentido não é auxiliado em suas funções nem pela vista, nem pela abertura do ouvido, nem pelas vias das narinas, nem pelo gosto do paladar, nem por nenhum tato corporal. Por ele tenho a certeza tanto de que existo quanto de que conheço isso; e a essas duas coisas eu amo, e do mesmo modo tenho a certeza de que as amo.