A Cidade de Deus - Livro XI 21
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Do conhecimento e da vontade eternos e imutáveis de Deus, pelos quais tudo o que fez Lhe agradou tanto no desígnio eterno quanto no resultado efetivo
Pois o que mais se há de entender por aquele refrão invariável, "E Deus viu que era bom", senão a aprovação da obra em seu desígnio, que é a sabedoria de Deus? Porque certamente Deus não aprendeu, na realização efetiva da obra, que ela era boa; ao contrário, nada teria sido feito se antes não fosse por Ele conhecido. Enquanto, portanto, Ele vê que é bom aquilo que, se não o tivesse visto antes de ser feito, jamais teria sido feito, é claro que Ele não está descobrindo, mas ensinando, que é bom. Platão, de fato, foi ousado o bastante para dizer que, quando o universo se completou, Deus, por assim dizer, se exaltou de alegria.
E Platão não foi tão tolo a ponto de querer dizer com isto que Deus se tornasse mais bem-aventurado pela novidade de sua criação; mas quis assim indicar que a obra agora completa encontrava a aprovação de seu Autor, tal como já a tinha enquanto ainda estava em desígnio. Não é como se o conhecimento de Deus fosse de várias espécies, conhecendo de modos diferentes as coisas que ainda não são, as que são e as que foram. Pois não é à nossa maneira que Ele olha adiante para o que é futuro, nem para o que é presente, nem para trás, para o que é passado; mas de um modo bem diverso e muito remoto, profundamente afastado da nossa forma de pensar.
Pois Ele não passa disto àquilo por transição do pensamento, mas contempla todas as coisas com absoluta imutabilidade; de modo que, daquelas coisas que emergem no tempo, as futuras, na verdade, ainda não são, e as presentes são agora, e as passadas já não são; mas todas elas são por Ele abrangidas em sua estável e eterna presença.
Tampouco vê Ele de um modo pelos olhos e de outro pela mente, pois não é composto de mente e corpo; nem o seu conhecimento presente difere daquele que sempre foi ou há de ser, pois aquelas variações do tempo, passado, presente e futuro, embora alterem o nosso conhecimento, não afetam o Seu, "no qual não há mudança, nem sombra de variação". Tampouco há qualquer crescimento de pensamento em pensamento nas concepções daquele cuja visão espiritual abrange de uma só vez todas as coisas que conhece.
Pois, assim como sem qualquer movimento que o tempo possa medir Ele mesmo move todas as coisas temporais, assim conhece todos os tempos com um conhecimento que o tempo não pode medir. E portanto Ele viu que era bom o que tinha feito, quando viu que era bom fazê-lo. E quando o viu feito, não teve por isso um conhecimento dele duplicado nem de algum modo aumentado, como se tivesse menor conhecimento antes de fazer aquilo que viu. Pois certamente Ele não seria o operário perfeito que é, se o seu conhecimento não fosse tão perfeito a ponto de não receber acréscimo algum de suas obras acabadas.
Por isso, se o único propósito tivesse sido informar-nos quem fez a luz, bastaria dizer: "Deus fez a luz"; e se ainda se pretendesse dar informação a respeito do meio pelo qual ela foi feita, teria sido suficiente dizer: "E disse Deus: Haja luz, e houve luz", para que soubéssemos não só que Deus fizera o mundo, mas também que o fizera pela palavra. Mas, porque era justo que nos fossem insinuadas três verdades capitais a respeito da criatura, a saber, quem a fez, por que meio e por quê, está escrito: "Disse Deus: Haja luz, e houve luz."
E viu Deus que a luz era boa." Se, então, perguntamos quem a fez, foi "Deus". Se, por que meio, Ele disse "Faça-se", e fez-se. Se perguntamos por que a fez, "era boa". Não há autor mais excelente que Deus, nem habilidade mais eficaz que a palavra de Deus, nem causa melhor que a de que o bem fosse criado pelo Deus bom.
Isto também Platão atribuiu como a razão mais suficiente para a criação do mundo: que obras boas fossem feitas por um Deus bom; quer tenha lido esta passagem, quer, talvez, tenha sido informado destas coisas por aqueles que as haviam lido, quer, por seu engenho de vista perspicaz, tenha penetrado até as coisas espirituais e invisíveis através das coisas que são criadas, quer tenha sido instruído a respeito delas por aqueles que as haviam discernido.