A Cidade de Deus - Livro XI 22
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Dos que não aprovam certas coisas que fazem parte desta boa criação de um bom Criador, e que pensam haver algum mal natural
Esta causa, porém, de uma boa criação, a saber, a bondade de Deus, esta causa, repito, tão justa e conveniente, que, quando piedosa e cuidadosamente ponderada, põe fim a todas as controvérsias dos que indagam a origem do mundo, não foi reconhecida por alguns hereges, porque há, na verdade, muitas coisas, tais como o fogo, o frio, as feras selvagens e outras semelhantes, que não convêm, mas prejudicam esta mortalidade frágil e de sangue ralo da nossa carne, a qual está presentemente sob justo castigo.
Não consideram quão admiráveis são essas coisas em seus próprios lugares, quão excelentes em suas próprias naturezas, quão belamente ajustadas ao restante da criação, e quanta graça conferem ao universo por suas próprias contribuições, como a uma república; e quão úteis são até para nós mesmos, se as usamos com conhecimento de suas adequadas aplicações, de modo que até os venenos, que são destrutivos quando usados sem discernimento, tornam-se salutares e medicinais quando usados em conformidade com suas qualidades e finalidade; assim como, por outro lado, aquelas coisas que nos dão prazer, tais como o alimento, a bebida e a luz do sol, mostram-se nocivas quando usadas imoderada ou inoportunamente.
E assim a divina providência nos adverte a não vituperar tolamente as coisas, mas a investigar com cuidado a sua utilidade; e, onde a nossa capacidade mental ou a nossa fraqueza está em falta, a crer que há uma utilidade, ainda que oculta, como já experimentamos haver outras coisas que por pouco não conseguimos descobrir. Pois esse ocultamento do uso das coisas é, ele próprio, ou um exercício da nossa humildade ou um abatimento do nosso orgulho; porquanto nenhuma natureza é absolutamente má, e este é um nome para nada mais senão a ausência do bem.
Mas, das coisas terrenas às celestes, do visível ao invisível, há algumas coisas melhores do que outras; e para este fim são elas desiguais, a fim de que todas pudessem existir.
Ora, Deus é de tal modo um grande operário nas grandes coisas, que não é menor nas pequenas, pois essas pequenas coisas devem ser medidas não por sua própria grandeza (que não existe), mas pela sabedoria de seu Artífice; assim como, na aparência visível de um homem, se uma sobrancelha for raspada, quão pouco, quase nada, se tira do corpo, mas quanto se tira da beleza! Pois esta não é constituída pelo volume, mas pela proporção e disposição dos membros.
Mas não nos admiramos muito de que pessoas, que supõem ter sido gerada e propagada alguma natureza má por uma espécie de princípio oposto que lhe é próprio, se recusem a admitir que a causa da criação tenha sido esta: que o Deus bom produziu uma boa criação.
Pois creem que Ele foi impelido a esta empresa da criação pela necessidade urgente de repelir o mal que contra Ele guerreava, e que misturou a sua boa natureza com o mal a fim de o refrear e vencer; e que essa natureza sua, sendo assim vergonhosamente poluída, e muito cruelmente oprimida e mantida cativa, Ele se esforça por purificar e libertar, e, com toda a sua fadiga, não o consegue inteiramente; mas a parte dela que não pôde ser purificada daquela contaminação há de servir de prisão e cadeia do inimigo vencido e encarcerado.
Os maniqueus não delirariam, ou melhor, não desvairariam de tal modo como este, se cressem que a natureza de Deus é, como de fato é, imutável e absolutamente incorruptível, e não sujeita a dano algum; e se, ademais, sustentassem, com sobriedade cristã, que a alma, que se mostrou capaz de ser alterada para pior pela sua própria vontade, e de ser corrompida pelo pecado, e assim de ser privada da luz da verdade eterna, que essa alma, repito, não é uma parte de Deus, nem da mesma natureza que Deus, mas é criada por Ele, e é muito diferente do seu Criador.