A Cidade de Deus - Livro XI 2

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Do conhecimento de Deus, ao qual ninguém pode chegar senão por meio do Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus

É coisa grande e muito rara que um homem, depois de haver contemplado toda a criação, corporal e incorpórea, e de haver percebido sua mutabilidade, a ultrapasse e, pelo contínuo arrebatamento de sua mente, alcance a substância imutável de Deus, e, naquela altura da contemplação, aprenda do próprio Deus que ninguém senão Ele fez tudo o que não pertence à essência divina.
Pois Deus fala com o homem não por meio de alguma criatura audível que ressoa em seus ouvidos, de modo que vibrações do ar liguem Aquele que produz o som àquele que o ouve, nem mesmo por meio de um ser espiritual com a aparência de um corpo, tal como vemos nos sonhos ou em estados semelhantes; pois também neste caso Ele fala como que aos ouvidos do corpo, porque é por meio da aparência de um corpo que Ele fala, e com a aparência de um intervalo real de espaço, visto que as visões são representações exatas de objetos corporais. Não é, portanto, por estes meios que Deus fala, mas pela própria verdade, se alguém está preparado para ouvir com a mente, e não com o corpo.
Pois Ele fala àquela parte do homem que é melhor do que tudo o mais que nele há, e do que o próprio Deus é melhor. Pois, uma vez que se entende com toda propriedade (ou, se isso não for possível, então ao menos se crê) que o homem foi feito à imagem de Deus, não dúvida de que é aquela parte dele pela qual ele se eleva acima das partes inferiores que tem em comum com os animais que o aproxima do Supremo.
Mas, visto que a própria mente, ainda que naturalmente capaz de razão e inteligência, está incapacitada por vícios entorpecentes e inveterados não de deleitar-se em Sua luz imutável e nela permanecer, mas até mesmo de suportá-la, até que tenha sido gradualmente curada, renovada e tornada capaz de tamanha felicidade, era preciso, em primeiro lugar, que ela fosse impregnada de e assim purificada. E, para que nessa pudesse avançar com mais confiança rumo à verdade, a própria verdade, Deus, o Filho de Deus, assumindo a humanidade sem destruir Sua divindade, estabeleceu e fundou esta fé, a fim de que houvesse para o homem um caminho até o Deus do homem por meio de um Deus-homem.
Pois este é o Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus. Pois é enquanto homem que Ele é o Mediador e o Caminho. Visto que, se o caminho se estende entre aquele que vai e o lugar para onde ele vai, esperança de que o alcance; mas, se não houver caminho, ou se ele não souber onde ele está, de que lhe serve saber para onde deve ir? Ora, o único caminho que está infalivelmente protegido contra todos os erros é quando uma e mesma pessoa é ao mesmo tempo Deus e homem: Deus, nosso fim; homem, nosso caminho.