A Cidade de Deus - Livro XI 1

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Desta parte da obra, na qual começamos a explicar a origem e o fim das duas cidades

A cidade de Deus de que falamos é a mesma à qual testemunho aquela Escritura que, por sua autoridade divina, sobrepuja todos os escritos de todas as nações e submeteu ao seu influxo toda sorte de espíritos, e isso não por um movimento intelectual casual, mas, evidentemente, por uma expressa disposição da providência.
Pois ali está escrito: "Coisas gloriosas se dizem de ti, ó cidade de Deus." E em outro salmo lemos: "Grande é o Senhor e mui digno de louvor na cidade do nosso Deus, no seu santo monte, que aumenta a alegria de toda a terra." E, pouco depois, no mesmo salmo: "Como o ouvimos, assim o vimos, na cidade do Senhor dos exércitos, na cidade do nosso Deus. Deus a estabeleceu para sempre." E em outro: "Há um rio cujas correntes alegrarão a cidade do nosso Deus, o lugar santo dos tabernáculos do Altíssimo.
Deus está no meio dela; não será abalada." Desses e de outros testemunhos semelhantes, que seria fastidioso citar por inteiro, aprendemos que existe uma cidade de Deus, e o seu Fundador inspirou-nos um amor que nos faz cobiçar a sua cidadania.
A este Fundador da cidade santa os cidadãos da cidade terrena preferem os seus próprios deuses, não sabendo que Ele é o Deus dos deuses: não dos deuses falsos, isto é, ímpios e soberbos, os quais, privados da sua luz imutável e livremente comunicada e assim reduzidos a uma espécie de poder miserável, avidamente se apegam aos seus privilégios particulares e buscam honras divinas de seus súditos iludidos; mas dos deuses piedosos e santos, que mais se comprazem em submeter-se a um do que em sujeitar muitos a si mesmos, e que preferem adorar a Deus a serem adorados como Deus.
Mas aos inimigos desta cidade respondemos nos dez livros precedentes, segundo a nossa capacidade e o auxílio concedido por nosso Senhor e Rei. Agora, reconhecendo o que se espera de mim e não esquecido da minha promessa, e confiando também no mesmo socorro, esforçar-me-ei por tratar da origem, do progresso e dos destinos merecidos das duas cidades (a terrena e a celeste, a saber), as quais, como dissemos, neste mundo presente estão misturadas e, por assim dizer, entrelaçadas. E, primeiramente, explicarei como os fundamentos destas duas cidades foram originalmente lançados na diferença que surgiu entre os anjos.