A Cidade de Deus - Livro XI 19

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

O que, ao que parece, devemos entender pelas palavras "Deus separou a luz das trevas"

Por conseguinte, embora a obscuridade da palavra divina tenha certamente esta vantagem, a de fazer com que muitas opiniões acerca da verdade sejam suscitadas e discutidas, vendo cada leitor nela algum sentido novo, ainda assim, tudo o que se diga estar significado por uma passagem obscura deve ou ser confirmado pelo testemunho de fatos manifestos, ou ser afirmado em outros textos menos ambíguos. Esta obscuridade é proveitosa, quer o sentido do autor seja enfim alcançado depois da discussão de muitas outras interpretações, quer, ainda que esse sentido permaneça oculto, outras verdades sejam postas em evidência pela discussão da própria obscuridade.
A mim não me parece incongruente com a obra de Deus, se entendermos que os anjos foram criados quando aquela primeira luz foi feita, e que uma separação foi feita entre os anjos santos e os imundos, quando, como está dito, "Deus separou a luz das trevas; e Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite." Pois Ele podia fazer esta distinção, Ele que era capaz também, antes que caíssem, de prever que cairiam e que, privados da luz da verdade, permaneceriam nas trevas da soberba.
Pois, no que diz respeito ao dia e à noite que nos são familiares, Ele ordenou àqueles luzeiros do céu, manifestos aos nossos sentidos, que separassem entre a luz e as trevas. "Haja", diz Ele, "luzeiros no firmamento do céu, para separar o dia da noite"; e logo em seguida diz: "E Deus fez dois grandes luzeiros: o luzeiro maior para governar o dia, e o luzeiro menor para governar a noite; e as estrelas.
E Deus os colocou no firmamento do céu, para iluminar a terra, e para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas." Mas entre aquela luz, que é a santa companhia dos anjos espiritualmente resplandecentes pela iluminação da verdade, e aquelas trevas opostas, que são a torpe imundície da condição espiritual daqueles anjos que se desviaram da luz da justiça, Ele mesmo podia separar, Ele de quem a maldade deles (não de natureza, mas de vontade), ainda quando era futura, não podia estar oculta nem incerta.