A Cidade de Deus - Livro XI 18
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Da beleza do universo, que se torna, pela ordenação de Deus, mais brilhante pela oposição dos contrários
Pois Deus jamais teria criado nenhum, não digo anjo, mas sequer homem, cuja futura maldade Ele previa, se não houvesse igualmente conhecido para que utilidades, em benefício dos bons, poderia voltá-lo, ornando assim o curso das eras como um poema primoroso realçado por antíteses. Pois aquilo que se chama antíteses está entre os mais elegantes ornamentos do discurso. Poderiam chamar-se, em latim, "oposições", ou, para falar com mais exatidão, "contraposições"; mas esta palavra não é de uso comum entre nós, embora o latim, e na verdade as línguas de todas as nações, se valham dos mesmos ornamentos de estilo.
Na Segunda Epístola aos Coríntios, o apóstolo Paulo também faz um uso gracioso da antítese, naquela passagem em que diz: "Pelas armas da justiça à direita e à esquerda, pela honra e pela desonra, pela má fama e pela boa fama: como enganadores, e contudo verdadeiros; como desconhecidos, e contudo bem conhecidos; como morrendo, e eis que vivemos; como castigados, e não mortos; como tristes, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e contudo possuindo todas as coisas." Assim, pois, como essas oposições de contrários emprestam beleza à linguagem, também a beleza do curso deste mundo se realiza pela oposição dos contrários, disposta, por assim dizer, por uma eloquência não de palavras, mas de coisas.
Isto é declarado com toda a clareza no livro do Eclesiástico, desta maneira: "O bem está oposto ao mal, e a vida à morte: assim também o pecador ao homem piedoso. Considera, pois, todas as obras do Altíssimo, e estão duas a duas, uma contra a outra."