A Cidade de Deus - Livro XI 17

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Que o defeito da maldade não é natureza, mas contrário à natureza, e tem sua origem não no Criador, mas na vontade

É com referência à natureza, portanto, e não à maldade do diabo, que devemos entender estas palavras: "Este é o princípio da obra de Deus"; pois, sem dúvida, a maldade pode ser um defeito ou vício onde a natureza não havia sido previamente corrompida. O vício, ademais, é de tal modo contrário à natureza, que não pode senão prejudicá-la. E, por isso, o afastamento de Deus não seria um vício, a não ser numa natureza cuja propriedade era permanecer com Deus. De modo que até mesmo a vontade é uma prova robusta da bondade da natureza.
Mas Deus, assim como é o Criador supremamente bom das naturezas boas, também é das vontades más o mais justo Governador; de sorte que, enquanto elas fazem mau uso das naturezas boas, Ele faz bom uso até mesmo das vontades más. Por conseguinte, Ele fez com que o diabo (bom pela criação de Deus, mau por sua própria vontade) fosse derrubado de sua elevada posição e se tornasse o escárnio de seus anjos, isto é, fez com que as tentações dele beneficiassem aqueles a quem ele deseja prejudicar por meio delas.
E porque Deus, ao criá-lo, certamente não ignorava a sua futura malignidade e previa o bem que Ele mesmo extrairia do mal dele, por isso diz o salmo: "Este leviatã que formaste para folgar nele", a fim de que vejamos que, ainda quando Deus em sua bondade o criou bom, Ele havia, contudo, previsto e disposto como dele faria uso quando se tornasse mau.