A Cidade de Deus - Livro XI 16

Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos

Das ordens e diferenças das criaturas, avaliadas por sua utilidade ou segundo as gradações naturais do ser

Pois, entre os seres que existem e que não são da essência de Deus Criador, aqueles que têm vida estão acima dos que não a têm; os que possuem o poder de gerar, ou mesmo de desejar, acima dos que carecem dessa faculdade. E, entre as coisas que têm vida, as sencientes são superiores às que não têm sensação, assim como os animais estão acima das árvores. E, entre os seres sencientes, os inteligentes estão acima dos que não têm inteligência, como, por exemplo, os homens acima dos brutos. E, entre os inteligentes, os imortais, tais como os anjos, acima dos mortais, tais como os homens.
Estas são as gradações segundo a ordem da natureza; mas, segundo a utilidade que cada homem encontra numa coisa, diversos padrões de valor, de modo que vem a acontecer que preferimos algumas coisas destituídas de sensação a certos seres sencientes. E tão forte é essa preferência que, se tivéssemos o poder, aboliríamos por completo estes últimos da natureza, quer por ignorância do lugar que ocupam na natureza, quer, ainda que o conheçamos, sacrificando-os à nossa própria conveniência. Quem, por exemplo, não preferiria ter pão em sua casa a ter ratos, ouro a ter pulgas?
Mas pouco que admirar nisso, visto que, mesmo quando se trata da avaliação dos próprios homens (cuja natureza é certamente da mais alta dignidade), muitas vezes se mais por um cavalo do que por um escravo, mais por uma joia do que por uma serva. Assim, a razão de quem contempla a natureza propõe juízos muito diversos daqueles ditados pela necessidade do indigente ou pelo desejo do voluptuoso; pois a primeira considera que valor uma coisa tem em si mesma na escala da criação, ao passo que a necessidade considera como ela atende à sua carência; a razão busca o que a luz da mente julgará verdadeiro, enquanto o prazer busca o que agradavelmente excita o sentido corporal.
Mas é de tal importância nas naturezas racionais o peso, por assim dizer, da vontade e do amor, que, embora na ordem da natureza os anjos estejam acima dos homens, contudo, pela balança da justiça, os homens bons são de maior valor do que os anjos maus.