A Cidade de Deus - Livro XI 12
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
Comparação entre a bem-aventurança dos justos, que ainda não receberam a recompensa divina, e a de nossos primeiros pais no paraíso
E os anjos não são os únicos membros da criação racional e intelectual a quem chamamos bem-aventurados. Pois quem ousará negar que aqueles primeiros homens no Paraíso eram bem-aventurados antes do pecado, ainda que estivessem incertos quanto à duração de sua bem-aventurança e quanto a ser ela eterna (e eterna teria sido, caso não houvessem pecado)? Quem, repito, fará tal coisa, vendo que ainda agora não impropriamente chamamos bem-aventurados aqueles que vemos levar uma vida justa e santa na esperança da imortalidade, que não têm nenhum remorso dilacerante de consciência, mas obtêm prontamente a remissão divina dos pecados de sua presente fragilidade?
Estes, embora estejam certos de que serão recompensados se perseverarem, não estão certos de que perseverarão. Pois que homem pode saber que perseverará até o fim no exercício e no crescimento da graça, a menos que tenha sido assegurado por alguma revelação daquele que, em seu justo e secreto juízo, embora a ninguém engane, a poucos informa acerca desta matéria?
Por conseguinte, no que diz respeito à consolação presente, o primeiro homem no Paraíso era mais bem-aventurado do que qualquer homem justo neste estado inseguro; mas, quanto à esperança do bem futuro, todo homem que não apenas supõe, mas sabe com certeza que gozará eternamente do Deus altíssimo na companhia dos anjos e fora do alcance do mal, esse homem, por mais que o aflijam quaisquer tormentos corporais, é mais bem-aventurado do que foi aquele que, mesmo naquela grande felicidade do Paraíso, estava incerto de sua sorte.