A Cidade de Deus - Livro XI 10
Livro XI: o início das duas cidades, a criação do mundo e a natureza dos anjos
A Trindade simples e imutável: Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus, em quem substância e qualidade se identificam
Existe, por conseguinte, um bem que é o único simples e, portanto, o único imutável, e esse bem é Deus. Por esse Bem foram criados todos os outros, mas não simples e, portanto, não imutáveis. "Criados", digo eu, isto é, feitos, não gerados. Pois aquilo que é gerado do Bem simples é simples como ele mesmo e idêntico a ele mesmo. A esses dois chamamos o Pai e o Filho; e ambos, juntamente com o Espírito Santo, são um só Deus; e a esse Espírito o epíteto Santo é, por assim dizer, atribuído na Escritura. E ele é outro que não o Pai e o Filho, pois não é nem o Pai nem o Filho.
Digo "outro", não "outra coisa", porque ele é igualmente com eles o Bem simples, imutável e coeterno. E essa Trindade é um só Deus; e não menos simples por ser Trindade. Pois não dizemos que a natureza do bem é simples porque somente o Pai a possui, ou somente o Filho, ou somente o Espírito Santo; nem dizemos, como os hereges sabelianos, que ela é Trindade apenas nominalmente e não tem nenhuma distinção real de pessoas; mas dizemos que ela é simples porque é aquilo que tem, com exceção da relação das pessoas entre si.
Pois, no que diz respeito a essa relação, é verdade que o Pai tem um Filho e, contudo, não é ele mesmo o Filho; e o Filho tem um Pai e não é ele mesmo o Pai. Mas, quanto a si mesmo, independentemente da relação com o outro, cada um é aquilo que tem; assim, ele é em si mesmo vivente, pois tem vida, e é ele mesmo a Vida que tem.
É por essa razão, então, que a natureza da Trindade é chamada simples, porque não tem nada que possa perder, e porque não é uma coisa e outro o seu conteúdo, como o cálice e o licor, ou um corpo e a sua cor, ou o ar e a luz ou o calor dele, ou uma mente e a sua sabedoria. Pois nenhum destes é aquilo que tem: o cálice não é o licor, nem o corpo a cor, nem o ar a luz e o calor, nem a mente a sabedoria.
E daí podem ser privados daquilo que têm, e podem ser convertidos ou mudados em outras qualidades e estados, de modo que o cálice possa ser esvaziado do líquido de que está cheio, o corpo seja descolorido, o ar se escureça, a mente se torne tola. O corpo incorruptível que é prometido aos santos na ressurreição não pode, de fato, perder a sua qualidade de incorrupção, mas a substância corporal e a qualidade de incorrupção não são a mesma coisa. Pois a qualidade de incorrupção reside inteira em cada uma das diversas partes, não maior numa e menor noutra; pois nenhuma parte é mais incorruptível que outra.
O corpo, de fato, é ele mesmo maior no todo do que na parte; e uma parte dele é maior, outra menor, e contudo a maior não é mais incorruptível que a menor. O corpo, então, que não é em cada uma de suas partes um corpo inteiro, é uma coisa; a incorruptibilidade, que é por toda parte completa, é outra coisa; pois cada parte do corpo incorruptível, por mais desigual que seja às demais sob outros aspectos, é igualmente incorrupta. Pois a mão, por exemplo, não é mais incorrupta que o dedo por ser maior que o dedo; assim, embora dedo e mão sejam desiguais, a sua incorruptibilidade é igual.
Assim, embora a incorruptibilidade seja inseparável de um corpo incorruptível, contudo a substância do corpo é uma coisa, e a qualidade de incorrupção outra. E, portanto, o corpo não é aquilo que tem. A própria alma também, ainda que seja sempre sábia (como o será eternamente quando for redimida), o será por participar da sabedoria imutável, a qual ela não é; pois, ainda que o ar nunca seja despojado da luz que nele se difunde, nem por isso é a mesma coisa que a luz.
Não quero dizer que a alma seja ar, como supuseram alguns que não conseguiam conceber uma natureza espiritual; mas, com muita dessemelhança, as duas coisas têm uma espécie de semelhança, que torna adequado dizer que a alma imaterial é iluminada pela luz imaterial da sabedoria simples de Deus, assim como o ar material é irradiado pela luz material, e que, assim como o ar, quando privado dessa luz, se escurece (pois a treva material não é outra coisa senão o ar carente de luz), assim também a alma, privada da luz da sabedoria, se escurece.
Segundo isso, então, aquelas coisas que são essencial e verdadeiramente divinas são chamadas simples, porque nelas qualidade e substância se identificam, e porque são divinas, ou sábias, ou bem-aventuradas em si mesmas, e sem suplemento externo. Na Sagrada Escritura, é verdade, o Espírito de sabedoria é chamado "multíplice", porque contém em si muitas coisas; mas aquilo que contém também o é, e, sendo um, é todas essas coisas.
Pois não há muitas sabedorias, mas uma só, na qual estão incontáveis e infinitos tesouros de coisas intelectuais, em que estão todas as razões invisíveis e imutáveis das coisas visíveis e mutáveis que por ela foram criadas. Pois Deus nada fez sem saber; nem mesmo de um artífice humano se pode dizer que o faça. Mas, se ele conhecia tudo o que fez, fez somente aquelas coisas que havia conhecido. Donde decorre uma conclusão muito notável, mas verdadeira: que este mundo não poderia ser conhecido por nós a não ser que existisse, mas não poderia ter existido a não ser que fosse conhecido por Deus.