A Cidade de Deus - Livro X 9
Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma
Das artes ilícitas ligadas ao culto dos demônios, das quais o platônico Porfírio adota algumas e rejeita outras
Esses milagres, e muitos outros da mesma natureza que seria fastidioso mencionar, foram realizados com o propósito de recomendar o culto do único Deus verdadeiro e de proibir o culto de uma multidão de deuses falsos. Além disso, foram realizados por simples fé e piedosa confiança, não por encantamentos e fórmulas mágicas compostas sob a influência de um trato criminoso com o mundo invisível, de uma arte que eles chamam ou de magia, ou pelo título mais abominável de necromancia, ou pela designação mais honrosa de teurgia; pois desejam distinguir entre aqueles a quem o povo chama de magos, que praticam a necromancia, são dados a artes ilícitas e estão condenados, e aqueles outros que lhes parecem dignos de louvor pela prática da teurgia. A verdade, porém, é que ambas as classes são escravas dos ritos enganosos dos demônios que invocam sob os nomes de anjos.
Pois mesmo Porfírio promete certa espécie de purgação da alma com o auxílio da teurgia, embora o faça com alguma hesitação e vergonha, e nega que essa arte possa garantir a quem quer que seja o retorno a Deus; de modo que se pode flagrar sua opinião vacilando entre a profissão da filosofia e uma arte que ele sente ser presunçosa e sacrílega.
Pois ora ele nos adverte a evitá-la como enganosa, proibida por lei e perigosa para os que a praticam; ora, de novo, como que por deferência aos seus defensores, declara-a útil para purificar uma parte da alma, não, na verdade, a parte intelectual, pela qual se reconhece a verdade das coisas inteligíveis, que não têm imagens sensíveis, mas a parte espiritual, que toma conhecimento das imagens das coisas materiais. Essa parte, diz ele, é preparada e tornada apta para o trato com os espíritos e os anjos, e para a visão dos deuses, com o auxílio de certas consagrações teúrgicas, ou, como as chamam, mistérios.
Ele reconhece, porém, que esses mistérios teúrgicos não conferem à alma intelectual nenhuma pureza tal que a torne apta a ver o seu Deus e a reconhecer as coisas que verdadeiramente existem. E desse reconhecimento podemos inferir que espécie de deuses são esses, e que espécie de visão deles é conferida pelas consagrações teúrgicas, se por ela não se podem ver as coisas que verdadeiramente existem. Diz ele, ademais, que a alma racional, ou, como prefere chamá-la, intelectual, pode passar aos céus sem que a parte espiritual seja purificada pela arte teúrgica, e que essa arte não pode purificar a parte espiritual a ponto de dar-lhe acesso à imortalidade e à eternidade.
E portanto, embora ele distinga os anjos dos demônios, afirmando que a habitação destes está no ar, ao passo que aqueles moram no éter e no empíreo, e embora nos aconselhe a cultivar a amizade de algum demônio, que possa, depois da nossa morte, auxiliar-nos e elevar-nos ao menos um pouco acima da terra (pois admite que é por outro caminho que devemos alcançar a sociedade celestial dos anjos), ao mesmo tempo ele nos adverte claramente a evitar a sociedade dos demônios, dizendo que a alma, ao expiar o seu pecado depois da morte, execra o culto dos demônios pelos quais foi enredada.
E quanto à própria teurgia, embora a recomende como reconciliadora de anjos e demônios, não pode negar que ela lida com poderes que ou eles próprios invejam à alma a sua pureza, ou servem às artes daqueles que a invejam. Disso ele se queixa pela boca de um certo caldeu: "Um homem bom na Caldeia se queixa", diz ele, "de que os seus mais empenhados esforços para purificar a sua alma foram frustrados, porque outro homem, que tinha influência nessas matérias e que lhe invejava a pureza, havia orado aos poderes e os havia atado com seus encantamentos a não atender ao seu pedido.
Portanto", acrescenta Porfírio, "o que um homem atou, o outro não pôde desatar." E disso ele conclui que a teurgia é uma arte que realiza não só o bem, mas também o mal entre os deuses e os homens; e que os deuses também têm paixões, e são perturbados e agitados pelas emoções que Apuleio atribuía aos demônios e aos homens, mas das quais ele preservava os deuses por aquela sublimidade de morada que, em comum com Platão, lhes concedia.