A Cidade de Deus - Livro X 10

Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma

Sobre a teurgia, que promete uma purificação ilusória da alma pela invocação dos demônios

Mas eis aqui um outro platônico, e muito mais erudito que Apuleio, a saber, Porfírio, afirmando que, por não sei que teurgia, até os próprios deuses estão sujeitos a paixões e perturbações; pois, por meio de conjuras, de tal modo eram ligados e aterrorizados que não podiam conferir a pureza da alma, sendo de tal modo aterrorizados por aquele que lhes impunha uma ordem perversa, que não podiam, pela mesma teurgia, ser libertados daquele terror e cumprir o justo pedido daquele que a eles orava, ou fazer o bem que ele buscava.
Quem não que todas estas coisas são ficções de demônios enganadores, a não ser que seja um mísero escravo deles e um estranho à graça do verdadeiro Libertador? Pois, se o caldeu estivesse tratando com deuses bons, certamente um homem bem-intencionado, que buscava purificar a própria alma, teria tido mais influência sobre eles do que um homem mal-intencionado que procurava impedi-lo.
Ou então, se os deuses eram justos e consideravam o homem indigno da purificação que buscava, em todo caso não deveriam ter sido aterrorizados por uma pessoa invejosa, nem impedidos, como Porfírio confessa, pelo temor de uma divindade mais forte, mas deveriam ter simplesmente negado o benefício por seu próprio livre juízo.
E é surpreendente que aquele caldeu bem-intencionado, que desejava purificar a sua alma por ritos teúrgicos, não tenha encontrado nenhuma divindade superior que pudesse ou aterrorizar ainda mais os deuses amedrontados, forçando-os a conceder o benefício, ou aplacar os seus temores, capacitando-os assim a fazer o bem sem coação, mesmo supondo que o bom teurgo não tivesse ritos pelos quais ele próprio pudesse purgar a mácula do temor dos deuses que invocava para a purificação da sua própria alma. E por que razão existe um deus que tem poder de aterrorizar os deuses inferiores, e nenhum que tenha poder de libertá-los do temor?
Acaso se encontra um deus que escuta o homem invejoso e amedronta os deuses para que não façam o bem, e não se encontra um deus que escute o homem bem-intencionado e remova o temor dos deuses para que lhe façam o bem? Ó excelente teurgia! Ó admirável purificação da alma! Uma teurgia na qual a violência de uma inveja impura tem mais influência do que a súplica da pureza e da santidade. Antes, abominemos e evitemos o engano de tais espíritos perversos, e escutemos a doutrina.
Quanto àqueles que realizam estas imundas purificações por ritos sacrílegos, e veem em seu estado de iniciados (como ele ainda nos diz, embora possamos pôr em dúvida essa visão) certas aparições maravilhosamente belas de anjos ou deuses, é a isto que o apóstolo se refere quando fala de "Satanás transformando-se em anjo de luz". Pois estas são as aparições ilusórias daquele espírito que anseia por enredar as míseras almas no culto enganoso de muitos e falsos deuses, e por desviá-las do verdadeiro culto do verdadeiro Deus, por quem somente são purificadas e curadas, e que, como se disse de Proteu, "transforma-se em todas as formas", igualmente nocivo, quer nos assalte como inimigo, quer assuma o disfarce de amigo.