A Cidade de Deus - Livro X 6
Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma
Do verdadeiro e perfeito sacrifício
Assim, um verdadeiro sacrifício é toda obra que se realiza para que sejamos unidos a Deus em santa comunhão, e que tem referência àquele bem supremo e fim no qual unicamente podemos ser verdadeiramente bem-aventurados. E portanto até mesmo a misericórdia que mostramos aos homens, se não é mostrada por amor de Deus, não é um sacrifício. Pois, embora feito ou oferecido pelo homem, o sacrifício é coisa divina, como queriam indicar aqueles que assim o chamaram. Desse modo, o próprio homem, consagrado em nome de Deus e a Deus dedicado por voto, é um sacrifício na medida em que morre para o mundo a fim de viver para Deus.
Pois isto é parte daquela misericórdia que cada homem mostra a si mesmo, conforme está escrito: "Tem misericórdia da tua alma, agradando a Deus." Também o nosso corpo é um sacrifício quando o disciplinamos pela temperança, se o fazemos como devemos, por amor de Deus, para que não ofereçamos os nossos membros ao pecado como instrumentos de iniquidade, mas como instrumentos de justiça a Deus.
Exortando a este sacrifício, diz o apóstolo: "Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, que é o vosso culto racional." Se, então, o corpo, que sendo inferior a alma usa como servo ou instrumento, é um sacrifício quando usado retamente e em referência a Deus, quanto mais a própria alma se torna sacrifício quando se oferece a Deus, para que, inflamada pelo fogo do seu amor, receba de sua beleza e se torne agradável a ele, perdendo a forma do desejo terreno e sendo remodelada à imagem de uma formosura permanente?
E isto, de fato, o apóstolo acrescenta, dizendo: "E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Visto, portanto, que os verdadeiros sacrifícios são obras de misericórdia para conosco ou para com os outros, feitas em referência a Deus, e visto que as obras de misericórdia não têm outro objeto senão o alívio da aflição ou a concessão da felicidade, e visto que não há felicidade alguma fora daquele bem do qual se disse "Bom é para mim estar bem perto de Deus", segue-se que toda a cidade redimida, isto é, a congregação ou comunidade dos santos, é oferecida a Deus como nosso sacrifício por meio do grande Sumo Sacerdote, que se ofereceu a Deus em sua paixão por nós, para que fôssemos membros desta cabeça gloriosa, segundo a forma de servo.
Pois foi esta forma que ele ofereceu, nela ele foi oferecido, porque é segundo ela que é Mediador, nela é o nosso Sacerdote, nela é o Sacrifício.
Por conseguinte, depois que o apóstolo nos exortou a apresentar os nossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, nosso culto racional, e a não nos conformarmos com o mundo, mas a transformar-nos pela renovação da nossa mente, para que provássemos qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, isto é, o verdadeiro sacrifício de nós mesmos, ele diz: "Pois, pela graça de Deus que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo mais alto do que convém pensar, mas que pense com sobriedade, conforme Deus repartiu a cada um a medida da fé.
Pois, assim como temos muitos membros em um só corpo, e nem todos os membros têm o mesmo ofício, assim nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um membros uns dos outros, tendo dons diferentes segundo a graça que nos foi dada." Este é o sacrifício dos cristãos: nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo. E este é também o sacrifício que a Igreja celebra continuamente no sacramento do altar, conhecido dos fiéis, no qual ela ensina que ela mesma é oferecida na oblação que faz a Deus.