A Cidade de Deus - Livro X 5
Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma
Dos sacrifícios que Deus não exige, mas quis que fossem observados para representar aquilo que Ele de fato requer
E quem é tão insensato a ponto de supor que as coisas oferecidas a Deus Lhe sejam necessárias para alguns usos próprios Seus? A divina Escritura, em muitos lugares, refuta esta ideia. Para não ser cansativo, basta citar este breve dito de um salmo: "Eu disse ao Senhor: Vós sois o meu Deus, porque não necessitais dos meus bens." Devemos crer, então, que Deus não tem necessidade não só do gado, ou de qualquer outra coisa terrena e material, mas nem mesmo da justiça do homem, e que todo culto reto que se presta a Deus não aproveita a Ele, mas ao homem. Pois ninguém diria que faz um benefício a uma fonte por beber dela, ou à luz por enxergá-la.
E o fato de que a antiga Igreja oferecia sacrifícios de animais, dos quais o povo de Deus hoje em dia lê sem os imitar, nada mais prova senão isto: que aqueles sacrifícios significavam as coisas que fazemos com o propósito de nos aproximarmos de Deus e de induzir o nosso próximo a fazer o mesmo. Um sacrifício, portanto, é o sacramento visível, ou sinal sagrado, de um sacrifício invisível. Daí aquele penitente no salmo, ou talvez o próprio Salmista, suplicando a Deus que seja misericordioso para com os seus pecados, diz: "Se Vós desejásseis sacrifício, eu o daria; mas não Vos deleitais em holocaustos.
O sacrifício a Deus é um coração quebrantado: a um coração contrito e humilhado Deus não desprezará." Observai como, nas próprias palavras em que está exprimindo a recusa de Deus ao sacrifício, ele mostra que Deus requer sacrifício. Ele não deseja o sacrifício de um animal abatido, mas deseja o sacrifício de um coração contrito. Assim, aquele sacrifício que ele diz que Deus não quer é o símbolo do sacrifício que Deus quer. Deus não quer sacrifícios no sentido em que os insensatos pensam que Ele os quer, isto é, para satisfazer o Seu próprio prazer.
Pois, se Ele não tivesse desejado que os sacrifícios que requer (como, por exemplo, um coração contrito e humilhado pela dor penitente) fossem simbolizados por aqueles sacrifícios que se julgava Ele desejar por Lhe serem agradáveis, a antiga lei nunca teria ordenado a sua apresentação; e estavam destinados a cessar quando chegasse a ocasião oportuna, para que os homens não supusessem que os próprios sacrifícios, antes do que as coisas por eles simbolizadas, fossem agradáveis a Deus ou aceitáveis em nós. Daí, em outra passagem de outro salmo, Ele diz: "Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e a sua plenitude.
Acaso comerei carne de touros, ou beberei sangue de bodes?", como se Ele dissesse: Supondo que tais coisas me fossem necessárias, eu nunca te pediria aquilo que tenho em minha própria mão. Em seguida, Ele passa a mencionar o que estas coisas significam: "Oferece a Deus o sacrifício de louvor e paga ao Altíssimo os teus votos. E invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás." Assim, em outro profeta: "Com que me apresentarei diante do Senhor, e me inclinarei diante do Deus Altíssimo? Apresentar-me-ei diante Dele com holocaustos, com bezerros de um ano?
Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é que o Senhor requer de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?" Nas palavras deste profeta, estas duas coisas são distinguidas e expostas com suficiente clareza: que Deus não requer esses sacrifícios por si mesmos, e que Ele de fato requer os sacrifícios que eles simbolizam.
Na epístola intitulada "Aos Hebreus" está dito: "Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir, porque com tais sacrifícios Deus se agrada." E assim, quando está escrito: "Quero misericórdia, e não sacrifício", nada mais se quer dizer senão que um sacrifício é preferido a outro; pois aquilo que na linguagem comum se chama sacrifício é apenas o símbolo do verdadeiro sacrifício.
Ora, a misericórdia é o verdadeiro sacrifício, e por isso se diz, como acabo de citar, "com tais sacrifícios Deus se agrada". Todas as ordenanças divinas, portanto, que lemos a respeito dos sacrifícios no serviço do tabernáculo ou do templo, devemos referi-las ao amor de Deus e do próximo. Pois "destes dois mandamentos", como está escrito, "dependem toda a lei e os profetas".