A Cidade de Deus - Livro X 23
Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma
Dos princípios que, segundo os platônicos, regem a purificação da alma
O próprio Porfírio afirma que foi revelado por oráculos divinos que não somos purificados por sacrifício algum ao sol ou à lua, querendo com isso dar a entender que não somos purificados por sacrificar a deus algum. Pois que mistérios podem purificar, se os do sol e da lua, que são tidos como os principais dos deuses celestes, não purificam? Diz ele também, no mesmo lugar, que os "princípios" podem purificar, para que não se supusesse, a partir de sua afirmação de que sacrificar ao sol e à lua não pode purificar, que sacrificar a algum outro da multidão dos deuses pudesse fazê-lo. E o que ele, como platônico, entende por "princípios", nós o sabemos.
Pois ele fala de Deus Pai e de Deus Filho, a quem chama (escrevendo em grego) de o intelecto ou a mente do Pai; quanto ao Espírito Santo, porém, ou nada diz, ou nada diz claramente, pois não compreendo de que outro ele fale como ocupando o lugar intermédio entre esses dois. Pois se, à maneira de Plotino em sua discussão acerca das três substâncias principais, ele quisesse que entendêssemos por esse terceiro a alma da natureza, certamente não lhe teria dado o lugar intermédio entre esses dois, isto é, entre o Pai e o Filho.
Pois Plotino coloca a alma da natureza depois do intelecto do Pai, ao passo que Porfírio, fazendo dela o termo médio, não a coloca depois, mas entre os outros. Sem dúvida falou segundo a sua luz, ou conforme julgava conveniente; nós, porém, afirmamos que o Espírito Santo é o Espírito não somente do Pai, nem somente do Filho, mas de ambos. Pois os filósofos falam como bem lhes apraz, e nas matérias mais difíceis não hesitam em ofender ouvidos religiosos; nós, contudo, estamos obrigados a falar segundo uma regra determinada, para que a liberdade de palavra não engendre impiedade de opinião acerca das próprias matérias de que falamos.