A Cidade de Deus - Livro X 13

Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma

Do Deus invisível, que muitas vezes se tornou visível, não como realmente é, mas como os que O contemplavam podiam suportar a visão

Nem precisamos nos admirar de que Deus, invisível como é, tenha muitas vezes aparecido visivelmente aos patriarcas. Pois, assim como o som que comunica o pensamento concebido no silêncio da mente não é o próprio pensamento, do mesmo modo a forma pela qual Deus, invisível em sua própria natureza, se tornou visível, não era o próprio Deus. Não obstante, é Ele mesmo quem era visto sob aquela forma, assim como o próprio pensamento é ouvido no som da voz; e os patriarcas reconheciam que, embora a forma corpórea não fosse Deus, viam o Deus invisível.
Pois, ainda que Moisés conversasse com Deus, contudo disse: 'Se achei graça aos teus olhos, mostra-me a ti mesmo, para que eu te veja e te conheça.' E, como convinha que a lei, que foi dada não a um homem ou a uns poucos homens esclarecidos, mas a toda uma nação populosa, fosse acompanhada de sinais que inspirassem temor, grandes maravilhas foram operadas, pelo ministério dos anjos, diante do povo no monte onde a lei lhes era dada por meio de um homem, enquanto a multidão contemplava as aparições terríveis.
Pois o povo de Israel creu em Moisés, não como os lacedemônios creram em seu Licurgo, por ter ele recebido de Júpiter ou de Apolo as leis que lhes deu. Pois, quando foi dada ao povo a lei que ordenava o culto de um Deus, sinais maravilhosos e terremotos, tais quais a sabedoria divina julgou suficientes, foram produzidos à vista de todos, para que soubessem que era o Criador quem podia assim servir-se da criação para promulgar a sua lei.