A Cidade de Deus - Livro X 11

Livro X: Porfírio, o culto devido a Deus e a verdadeira via de redenção da alma

Da carta de Porfírio a Anebo, na qual pede informações sobre as diferenças entre os demônios

Foi um tom melhor o que Porfírio adotou em sua carta a Anebo, o egípcio, na qual, assumindo o papel de um inquiridor que o consulta, desmascara e desmantela essas artes sacrílegas. Nessa carta, com efeito, ele repudia todos os demônios, os quais afirma serem tão néscios a ponto de se deixarem atrair pelos vapores dos sacrifícios, residindo por isso não no éter, mas no ar abaixo da lua, e na própria lua. Contudo, não tem a ousadia de atribuir a todos os demônios todos os enganos e práticas maliciosas e néscias que justamente provocam sua indignação.
Pois, embora reconheça que, como raça, os demônios são néscios, ele de tal modo se acomoda às ideias populares que chama alguns deles de demônios benignos.
Manifesta surpresa de que os sacrifícios não apenas inclinem os deuses, mas também os compilam e os forcem a fazer o que os homens desejam; e fica perplexo, sem entender como o sol e a lua, e outros corpos celestes visíveis (pois não duvida de que sejam corpos) são considerados deuses, se os deuses se distinguem dos demônios por sua incorporeidade; e também, se são deuses, como é que alguns são chamados benéficos e outros nocivos, e como eles, sendo corpóreos, são contados entre os deuses, que são incorpóreos.
Indaga ainda, e sempre como quem está em dúvida, se os adivinhos e os obradores de prodígios são homens dotados de almas excepcionalmente poderosas, ou se o poder de fazer tais coisas lhes é comunicado por espíritos vindos de fora. Inclina-se à segunda opinião, com base no fato de que é pelo uso de pedras e ervas que eles lançam encantos sobre as pessoas, abrem portas fechadas e realizam prodígios semelhantes.
E por essa razão, diz ele, alguns supõem que existe uma raça de seres cuja propriedade é dar ouvidos aos homens: uma raça enganadora, cheia de artifícios, capaz de assumir todas as formas, simulando deuses, demônios e mortos; e que é essa raça que produz todas essas coisas que têm aparência de bem ou de mal, mas que naquilo que é verdadeiramente bom eles nunca nos auxiliam e, na verdade, o desconhecem, pois facilitam a maldade, mas lançam obstáculos no caminho dos que seguem ardentemente a virtude; e que estão cheios de soberba e temeridade, deleitam-se com os odores dos sacrifícios e se deixam cativar pela lisonja.
Estas e as outras características dessa raça de espíritos enganadores e maliciosos, que penetram nas almas dos homens e iludem seus sentidos, tanto no sono quanto na vigília, ele as descreve não como coisas das quais está ele próprio convencido, mas apenas com tanta suspeita e dúvida que fala delas como opiniões comumente recebidas. Devemos compadecer-nos desse grande filósofo pela dificuldade que experimentou em conhecer e atacar com confiança toda a fraternidade dos demônios, a qual qualquer velha cristã descreveria sem hesitação e detestaria do modo mais irrestrito.
Talvez, porém, ele recuasse diante do receio de ofender Anebo, a quem escrevia, ele mesmo o mais eminente patrono desses mistérios, ou os demais que admiravam esses feitos mágicos como obras divinas e estreitamente ligadas ao culto dos deuses.
Contudo, ele prossegue nesse assunto e, ainda no papel de inquiridor, menciona algumas coisas que nenhum juízo sóbrio poderia atribuir a outros senão a poderes maliciosos e enganadores.
Pergunta por que, depois de invocada a classe melhor dos espíritos, se ordena aos piores que executem os desejos perversos dos homens; por que não dão ouvidos a um homem que acaba de deixar o abraço de uma mulher, ao passo que eles próprios não têm escrúpulo de tentar os homens ao incesto e ao adultério; por que se ordena a seus sacerdotes que se abstenham de alimento animal por temor de serem contaminados pelas exalações corpóreas, enquanto eles próprios são atraídos pelas fumaças dos sacrifícios e por outras exalações; por que se proíbe aos iniciados tocar um cadáver, ao passo que seus mistérios são celebrados quase inteiramente por meio de cadáveres; por que motivo um homem entregue a algum vício profere ameaças, não a um demônio nem à alma de um morto, mas ao sol e à lua, ou a algum dos corpos celestes, que ele intimida com terrores imaginários, para arrancar deles um favor real (pois ameaça demolir o céu, e outras impossibilidades semelhantes), de modo que aqueles deuses, alarmados como crianças tolas com ameaças imaginárias e absurdas, façam o que lhes é ordenado.
Porfírio relata ainda que um homem chamado Queremon, profundamente versado nesses mistérios sagrados, ou antes sacrílegos, escrevera que os famosos mistérios egípcios de Ísis e de seu esposo Osíris tinham grandíssima influência sobre os deuses para compeli-los a fazer o que lhes era ordenado, quando aquele que empregava os encantamentos ameaçava divulgar ou destruir esses mistérios, e clamava com voz ameaçadora que dispersaria os membros de Osíris se negligenciassem suas ordens.
Não sem razão Porfírio se admira de que um homem profira ameaças tão insensatas e vãs contra os deuses (não contra deuses de nenhuma importância, mas contra os deuses celestes, e aqueles que brilham com luz sideral), e de que essas ameaças sejam eficazes para constrangê-los com poder irresistível, e os alarmem de tal modo que cumpram seus desejos.
Não sem razão ele, no papel de quem inquire as razões dessas coisas surpreendentes, a entender que elas são feitas por aquela raça de espíritos que antes descrevera, como se citasse opiniões alheias: espíritos que enganam não, como disse, por natureza, mas por sua própria corrupção, e que simulam deuses e mortos, mas não, como disse, demônios, pois demônios é o que realmente são.
Quanto à sua ideia de que, por meio de ervas, pedras e animais, e de certos encantamentos e ruídos, e de desenhos, ora fantasiosos, ora copiados dos movimentos dos corpos celestes, os homens criam na terra poderes capazes de produzir vários resultados, tudo isso não passa da mistificação que esses demônios praticam sobre os que lhes estão sujeitos, a fim de proporcionarem a si mesmos divertimento à custa de seus iludidos.
Ou, portanto, Porfírio era sincero em suas dúvidas e indagações, e mencionava essas coisas para demonstrar e pôr fora de questão que eram obra, não de poderes que nos auxiliam a obter a vida, mas de demônios enganadores; ou, para tomar uma visão mais favorável do filósofo, ele adotou esse método com o egípcio que estava preso a esses erros e se orgulhava deles, para não ofendê-lo assumindo a atitude de mestre, nem perturbar-lhe o ânimo com a altercação de um atacante declarado, mas, assumindo o papel de inquiridor e a humilde atitude de quem está ansioso por aprender, pudesse voltar a atenção dele para essas matérias e mostrar quão dignas elas são de ser desprezadas e abandonadas.
Para a conclusão de sua carta, ele pede a Anebo que o informe sobre o que a sabedoria egípcia indica como o caminho para a bem-aventurança. Mas quanto àqueles que mantêm comércio com os deuses e os importunam apenas para encontrar um escravo fugitivo, ou adquirir bens, ou negociar um casamento, ou coisas semelhantes, declara que suas pretensões à sabedoria são vãs.
Acrescenta que esses mesmos deuses, ainda que se conceda que em outros pontos suas declarações fossem verdadeiras, eram contudo tão mal-aconselhados e insatisfatórios em suas revelações acerca da bem-aventurança, que não podem ser nem deuses nem bons demônios, mas são ou aquele espírito que é chamado o enganador, ou meras ficções da imaginação.