A Cidade de Deus - Livro VIII 27
Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio
Sobre a natureza da honra que os cristãos prestam aos seus mártires
Mas, não obstante, não erguemos templos, nem ordenamos sacerdotes, ritos e sacrifícios para esses mesmos mártires; pois eles não são os nossos deuses, mas o Deus deles é o nosso Deus. Certamente honramos os seus relicários, como memoriais de santos homens de Deus que combateram pela verdade até a morte de seus corpos, para que a verdadeira religião fosse dada a conhecer e as religiões falsas e fictícias fossem desmascaradas. Pois, se houve alguns antes deles que julgavam que essas religiões eram de fato falsas e fictícias, tinham medo de dar expressão às suas convicções.
Mas quem jamais ouviu um sacerdote dos fiéis, estando diante de um altar erguido para a honra e o culto de Deus sobre o santo corpo de algum mártir, dizer nas orações: Ofereço-te um sacrifício, ó Pedro, ou ó Paulo, ou ó Cipriano? Pois é a Deus que os sacrifícios são oferecidos junto aos seus túmulos, ao Deus que os fez homens e mártires, e os associou aos santos anjos na honra celeste; e a razão pela qual prestamos tais honras à sua memória é que, fazendo-o, possamos tanto dar graças ao verdadeiro Deus pelas suas vitórias como, evocando-os de novo à lembrança, possamos animar-nos a imitá-los, buscando obter coroas e palmas semelhantes, invocando em nosso auxílio esse mesmo Deus a quem eles invocaram.
Portanto, quaisquer honras que os religiosos prestem nos lugares dos mártires, são apenas honras rendidas à sua memória, não ritos sagrados ou sacrifícios oferecidos a homens mortos como a deuses. E mesmo aqueles que para ali levam alimento, o que, na verdade, não é feito pelos cristãos melhores, e na maior parte dos lugares do mundo não é feito de modo algum, fazem-no para que esse alimento lhes seja santificado pelos méritos dos mártires, em nome do Senhor dos mártires, apresentando primeiro o alimento e oferecendo oração, e depois retirando-o para ser comido, ou para ser em parte distribuído aos necessitados.
Mas aquele que conhece o único sacrifício dos cristãos, que é o sacrifício oferecido nesses lugares, também sabe que estes não são sacrifícios oferecidos aos mártires. Não é, pois, nem com honras divinas nem com crimes humanos, pelos quais eles adoram os seus deuses, que honramos os nossos mártires; tampouco lhes oferecemos sacrifícios, ou convertemos os crimes dos deuses em seus ritos sagrados.
Pois leiam os que quiserem e puderem a carta de Alexandre à sua mãe Olímpia, na qual ele relata as coisas que lhe foram reveladas pelo sacerdote Leão, e os que a leram recordem o que ela contém, para que vejam que grandes abominações foram transmitidas à memória, não pelos poetas, mas pelos escritos místicos dos egípcios, a respeito da deusa Ísis, esposa de Osíris, e dos pais de ambos, todos os quais, segundo esses escritos, eram personagens reais.
Diz-se que Ísis, ao sacrificar a seus pais, descobriu uma colheita de cevada, da qual levou algumas espigas ao rei seu marido e a seu conselheiro Mercúrio, e por isso a identificam com Ceres. Os que lerem a carta poderão ali ver qual era o caráter daquelas pessoas a quem, depois de mortas, foram instituídos ritos sagrados como a deuses, e quais foram aqueles feitos seus que forneceram a ocasião para esses ritos. Que não ousem, em nenhum aspecto, comparar essas pessoas, embora as tenham por deuses, aos nossos santos mártires, embora nós não os tenhamos por deuses.
Pois não ordenamos sacerdotes nem oferecemos sacrifícios aos nossos mártires, como eles fazem aos seus homens mortos, pois isso seria incongruente, indevido e ilícito, sendo tal coisa devida somente a Deus; e assim não os deleitamos com os seus próprios crimes, ou com espetáculos tão vergonhosos como aqueles em que os crimes dos deuses são celebrados, os quais ou são crimes reais cometidos por eles no tempo em que eram homens, ou então, se nunca foram homens, crimes fictícios inventados para o prazer de demônios nocivos. O deus de Sócrates, se ele tinha um deus, não pode ter pertencido a esta classe de demônios.
Mas talvez aqueles que desejavam sobressair nessa arte de fazer deuses tenham imposto um deus dessa espécie a um homem que era estranho e inocente de qualquer ligação com essa arte. Que mais precisamos dizer? Ninguém que seja ao menos moderadamente sábio imagina que os demônios devam ser adorados por causa da vida bem-aventurada que há de vir após a morte. Mas talvez digam que todos os deuses são bons, mas que, dentre os demônios, alguns são maus e alguns bons, e que são os bons que devem ser adorados, a fim de que, por meio deles, possamos alcançar a vida eternamente bem-aventurada. Ao exame dessa opinião dedicaremos o livro seguinte.