A Cidade de Deus - Livro VIII 13

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Sobre a opinião de Platão, segundo a qual ele definia os deuses como seres inteiramente bons e amigos da virtude

Portanto, ainda que em muitos outros aspectos importantes eles difiram de nós, contudo, no que diz respeito a este ponto particular de divergência que acabei de expor, sendo ele de grande relevância e estando a questão presente ligada a ele, perguntarei primeiro a quem, dentre os deuses, julgam que se devam prestar os ritos sagrados: aos bons, ou aos maus, ou tanto aos bons quanto aos maus? Mas temos a opinião de Platão afirmando que todos os deuses são bons, e que não um sequer dentre os deuses que seja mau. Segue-se, pois, que tais ritos devem ser prestados aos bons, porque então são prestados a deuses; pois, se não são bons, tampouco são deuses.
Ora, se assim é (pois que outra coisa deveríamos crer a respeito dos deuses?), certamente isso desmente a opinião de que os deuses maus devem ser aplacados por ritos sagrados, para que não nos prejudiquem, ao passo que os deuses bons devem ser invocados, para que nos assistam. Pois não deuses maus, e é aos bons que, como dizem, se deve pagar a devida honra de tais ritos. De que caráter, então, são aqueles deuses que amam os espetáculos cênicos, chegando mesmo a exigir que se lhes conceda um lugar entre as coisas divinas e que tais espetáculos sejam exibidos em sua honra?
O poder desses deuses prova que existem, mas o seu apreço por tais coisas prova que são maus. Pois é bem sabido qual era a opinião de Platão acerca dos jogos cênicos. Ele pensa que os próprios poetas, por terem composto cantos tão indignos da majestade e da bondade dos deuses, deveriam ser banidos do Estado. De que caráter, portanto, são aqueles deuses que entram em contenda com o próprio Platão a respeito desses jogos cênicos? Ele não tolera que os deuses sejam difamados por crimes falsos; os deuses, porém, ordenam que esses mesmos crimes sejam celebrados em sua própria honra.
Por fim, quando ordenaram que esses jogos fossem inaugurados, não apenas exigiram coisas baixas, mas também praticaram coisas cruéis, tirando de Tito Latínio o seu filho e enviando-lhe uma doença, porque ele se recusara a obedecer-lhes, doença essa que removeram quando ele cumpriu as suas ordens. Platão, contudo, por mais maus que fossem, não julgava que se devesse temê-los; mas, sustentando a sua opinião com a maior firmeza e constância, não hesita em remover de um Estado bem ordenado todas as loucuras sacrílegas dos poetas, com as quais esses deuses se deleitam porque eles próprios são impuros.
Mas Labeão coloca este mesmo Platão (como mencionei no segundo livro) entre os semideuses. Ora, Labeão pensa que as divindades más devem ser aplacadas com vítimas sangrentas e com jejuns acompanhados das mesmas, ao passo que as divindades boas o devem ser com jogos e com todas as demais coisas que se associam à alegria. Como vem a ser, então, que o semideus Platão tão obstinadamente ousa tirar esses prazeres, por considerá-los baixos, não dos semideuses, mas dos deuses, e estes os deuses bons?
E, ademais, esses próprios deuses certamente refutam a opinião de Labeão, pois se mostraram, no caso de Latínio, não apenas lascivos e brincalhões, mas também cruéis e terríveis. Que os platonistas, portanto, nos expliquem essas coisas, visto que, seguindo a opinião de seu mestre, julgam que todos os deuses são bons e honrados, e amigos das virtudes dos sábios, tendo por ilícito pensar de outro modo a respeito de qualquer dos deuses. Nós o explicaremos, dizem eles. Ouçamo-los, pois, com atenção.