A Cidade de Deus - Livro VII 34
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Sobre os livros de Numa Pompílio, que o senado ordenou que fossem queimados, para que não se tornassem conhecidas as causas dos ritos sagrados neles registradas
Mas, por outro lado, encontramos, como o relatou esse mesmo homem doutíssimo, que as causas dos ritos sagrados que foram dadas a partir dos livros de Numa Pompílio de modo algum podiam ser toleradas, e eram consideradas indignas não só de se tornarem conhecidas pelos religiosos por meio da leitura, mas até mesmo de jazerem escritas nas trevas em que haviam sido ocultadas. Pois agora me cabe dizer o que prometi, no terceiro livro desta obra, dizer no lugar oportuno.
Pois, como lemos no mesmo livro de Varrão sobre o culto dos deuses: "Certo Terêncio possuía um campo no Janículo, e uma vez, quando o seu lavrador conduzia o arado perto do túmulo de Numa Pompílio, revolveu da terra os livros de Numa, nos quais estavam escritas as causas das instituições sagradas; livros esses que ele levou ao pretor, o qual, tendo lido os começos deles, levou ao senado o que parecia ser assunto de tão grande importância.
E quando os principais senadores haviam lido algumas das causas pelas quais este ou aquele rito fora instituído, o senado deu seu consentimento ao Numa morto, e os patres conscritos, como que zelosos pelos interesses da religião, ordenaram ao pretor que queimasse os livros." Que cada um creia o que pensar; ou melhor, que todo defensor de tal impiedade diga o que quer que a louca obstinação lhe sugira.
De minha parte, baste-me sugerir que as causas daquelas coisas sagradas que foram registradas pelo rei Numa Pompílio, instituidor dos ritos romanos, jamais deveriam ter-se tornado conhecidas do povo ou do senado, nem mesmo dos próprios sacerdotes; e também que o próprio Numa alcançou esses segredos dos demônios por uma curiosidade ilícita, a fim de poder registrá-los, de modo a poder, pela leitura, recordar-se deles. Contudo, embora fosse rei e não tivesse motivo para temer ninguém, ele não ousou ensiná-los a quem quer que fosse, nem destruí-los por meio do apagamento, ou de qualquer outra forma de destruição.
Portanto, porque não queria que ninguém os conhecesse, para que os homens não fossem ensinados em coisas infames, e porque temia violá-los, para não enfurecer os demônios contra si mesmo, ele os enterrou no que julgava ser um lugar seguro, crendo que um arado não poderia aproximar-se de seu sepulcro.
Mas o senado, temendo condenar as solenidades religiosas de seus antepassados, e por isso compelido a consentir com Numa, estava, não obstante, de tal modo convencido de que aqueles livros eram perniciosos, que não ordenou que fossem novamente enterrados, sabendo que a curiosidade humana seria assim excitada a buscar com ânsia muito maior aquilo que já havia sido divulgado, mas ordenou que as escandalosas relíquias fossem destruídas pelo fogo; porque, como julgavam ser agora uma necessidade executar aqueles ritos sagrados, consideraram que o erro proveniente da ignorância de suas causas era mais tolerável do que a perturbação que o conhecimento delas ocasionaria ao Estado.