A Cidade de Deus - Livro VII 35

Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna

Sobre a hidromancia pela qual Numa foi enganado por certas imagens de demônios vistas na água

Pois o próprio Numa também, a quem nenhum profeta de Deus, nenhum santo anjo foi enviado, viu-se forçado a recorrer à hidromancia, para que pudesse ver na água as imagens dos deuses (ou, antes, aparições pelas quais os demônios zombavam dele), e para que pudesse aprender deles o que deveria ordenar e observar nos ritos sagrados. Este gênero de adivinhação, diz Varrão, foi introduzido a partir dos persas, e foi usado pelo próprio Numa, e em tempo posterior pelo filósofo Pitágoras. Nesta adivinhação, diz ele, eles também interrogam os habitantes do mundo inferior, e fazem uso de sangue; e isto os gregos chamam νεκρομαντείαν.
Mas, quer se chame necromancia, quer hidromancia, é a mesma coisa, pois em qualquer dos casos supõe-se que os mortos predizem as coisas futuras. Mas, por meio de quais artifícios essas coisas são feitas, que eles mesmos o considerem; pois não desejo afirmar que esses artifícios costumavam ser proibidos pelas leis, e ser punidos com grande severidade mesmo nos Estados pagãos, antes da vinda do nosso Salvador. Não desejo, repito, afirmar isto, pois talvez até tais coisas fossem então permitidas.
Contudo, foi por essas artes que Pompílio aprendeu aqueles ritos sagrados que ele transmitiu como fatos, ao mesmo tempo em que ocultava as causas deles; pois até ele mesmo temia aquilo que havia aprendido. O senado também mandou queimar os livros nos quais essas causas estavam registradas. Que importa, então, para mim, que Varrão tente apresentar toda sorte de interpretações físicas fantasiosas, as quais, se esses livros as tivessem contido, certamente não teriam sido queimados? Pois, de outro modo, os pais conscritos também teriam queimado aqueles livros que Varrão publicou e dedicou ao sumo sacerdote César.
Ora, diz-se que Numa desposou a ninfa Egéria, porque (como Varrão o explica no livro mencionado) ele levava para fora a água com a qual realizava sua hidromancia. Assim, os fatos costumam ser convertidos em fábulas por meio de falsos coloridos. Foi, então, por aquela hidromancia que aquele rei romano por demais curioso aprendeu tanto os ritos sagrados que deveriam ser escritos nos livros dos sacerdotes, como também as causas desses ritos, as quais, contudo, ele não queria que ninguém além de si mesmo conhecesse.
Por isso, ele fez com que essas causas, por assim dizer, morressem juntamente com ele, tendo o cuidado de fazê-las escrever em separado, e de removê-las do conhecimento dos homens, sepultando-as na terra.
Portanto, as coisas que estão escritas naqueles livros, ou eram abominações de demônios, tão imundas e nocivas a ponto de tornar execrável toda aquela teologia civil mesmo aos olhos de homens como aqueles senadores, que tinham aceitado tantas coisas vergonhosas nos próprios ritos sagrados, ou não eram outra coisa senão os relatos de homens mortos, os quais, com o decorrer das eras, quase todas as nações pagãs tinham passado a crer serem deuses imortais; ao passo que esses mesmos demônios se deleitavam até com tais ritos, tendo-se apresentado para receber adoração sob o pretexto de serem aqueles próprios homens mortos, a quem haviam feito ser tidos por deuses imortais por meio de certos milagres falaciosos, realizados a fim de estabelecer essa crença.
Mas, pela providência oculta do verdadeiro Deus, foi permitido a esses demônios confessar essas coisas ao seu amigo Numa, tendo sido conquistados por aquelas artes mediante as quais a necromancia podia ser realizada, e contudo não foram constrangidos a adverti-lo, antes, à sua morte, a queimar do que a sepultar os livros em que estavam escritas. Mas, para que esses livros permanecessem desconhecidos, os demônios não puderam resistir ao arado pelo qual foram desenterrados, nem à pena de Varrão, por meio da qual as coisas que se fizeram a respeito deste assunto chegaram até ao nosso conhecimento.
Pois eles não são capazes de efetuar coisa alguma que não lhes seja permitida; mas lhes é concedido influenciar aqueles a quem Deus, em seu profundo e justo juízo, segundo os seus merecimentos, entrega ou simplesmente para serem por eles afligidos, ou também para serem subjugados e enganados. Mas quão perniciosos foram julgados esses escritos, ou quão alheios à adoração da verdadeira Divindade, pode-se compreender pelo fato de que o senado preferiu queimar o que Pompílio havia escondido, a temer aquilo que ele temia, de modo que ele não ousasse fazê-lo. Por isso, que aquele que não deseja viver uma vida piedosa nem mesmo agora, busque a vida eterna por meio de tais ritos.
Mas aquele que não quer ter comunhão com os demônios malignos, que não tenha temor da nociva superstição com que eles são adorados, mas que reconheça a verdadeira religião pela qual eles são desmascarados e vencidos.