A Cidade de Deus - Livro VII 33
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Que somente pela religião cristã pôde manifestar-se o engano dos espíritos malignos, que se alegram com os erros dos homens
Esta religião, a única verdadeira, foi a única capaz de manifestar que os deuses das nações são demônios imundíssimos, que desejam ser tidos por deuses, valendo-se dos nomes de certas almas defuntas, ou da aparência de criaturas mundanas, e que, com soberba impureza, se alegram nas coisas mais baixas e infames como se fossem honras divinas, invejando às almas humanas a sua conversão ao Deus verdadeiro. De cujo domínio cruelíssimo e impiíssimo se liberta o homem quando crê Naquele que ofereceu um exemplo de humildade, seguindo o qual os homens podem elevar-se tão alto quanto foi grande aquela soberba pela qual caíram.
Por isso, não somente aqueles deuses, dos quais já falamos muito, e muitos outros pertencentes a diferentes nações e terras, mas também aqueles de que agora tratamos, que foram selecionados como que para o senado dos deuses (selecionados, porém, por causa da notoriedade de seus crimes, e não por causa da dignidade de suas virtudes), cujos ritos sagrados Varrão tenta reduzir a certas razões naturais, procurando tornar honrosas as coisas baixas, não consegue achar como ajustá-los e fazê-los concordar com essas razões, porque estas não são as causas daqueles ritos, como ele pensa, ou antes, como deseja que se pense.
Pois, se não somente estas, mas também todas as outras causas desse gênero fossem causas reais, ainda que nada tivessem que ver com o Deus verdadeiro e com a vida eterna, que se deve buscar na religião, elas, ao oferecerem algum tipo de razão extraída da natureza das coisas, teriam mitigado em certo grau aquela ofensa que era ocasionada por alguma torpeza ou absurdo nos ritos sagrados, que não era compreendido. Isto ele tentou fazer a respeito de certas fábulas dos teatros, ou mistérios dos santuários; mas não absolveu os teatros de sua semelhança com os santuários, e antes condenou os santuários por sua semelhança com os teatros.
Todavia, de algum modo ele empreendeu a tentativa de aplacar os sentimentos chocados por coisas horríveis, apresentando aquilo que ele queria que fossem interpretações naturais.