A Cidade de Deus - Livro VII 24

Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna

Sobre os sobrenomes de Telos e seus significados, os quais, embora indiquem muitas propriedades, não deveriam ter estabelecido a opinião de que existe um número correspondente de deuses

A terra, então, sendo una, em razão desta quádrupla virtude, deveria ter tido quatro sobrenomes, mas não deveria ter sido considerada como quatro deuses, assim como Júpiter e Juno, ainda que tenham tantos sobrenomes, nem por isso são senão divindades únicas; pois, por todos esses sobrenomes, significa-se que uma virtude múltipla pertence a um deus ou a uma deusa, mas a multidão de sobrenomes não implica uma multidão de deuses.
Mas, assim como por vezes até as mais vis mulheres se cansam daquelas multidões que buscaram sob o impulso de paixão perversa, assim também a alma, tornada vil e prostituída a espíritos impuros, por vezes começa a ter aversão a multiplicar para si os deuses aos quais entregar-se para ser por eles maculada, tanto quanto outrora se deleitava em assim fazer. Pois o próprio Varrão, como se envergonhado daquela multidão de deuses, faria de Telos uma deusa.
"Dizem," diz ele, "que, ao ter a grande mãe um tímpano, significa-se que ela é o orbe da terra; ao ter torres sobre a cabeça, significam-se as cidades; e, ao estarem fixados assentos ao redor dela, significa-se que, enquanto todas as coisas se movem, ela não se move. E o terem feito os Galos servir a esta deusa significa que aqueles que carecem de semente devem seguir a terra, pois nela todas as sementes se encontram. Pelo lançarem-se ao chão diante dela, ensina-se," diz ele, "que aqueles que cultivam a terra não devem permanecer ociosos, pois sempre algo para que façam.
O som dos címbalos significa o ruído feito pelo lançar de utensílios de ferro e pelas mãos dos homens, e todos os demais ruídos ligados às operações agrícolas; e esses címbalos são de bronze, porque os antigos usavam utensílios de bronze em sua agricultura antes que o ferro fosse descoberto. Colocam junto da deusa um leão solto e manso, para mostrar que não espécie de terra tão selvagem e tão excessivamente estéril que fosse inútil tentar trazê-la ao cultivo." Em seguida ele acrescenta que, por terem dado muitos nomes e sobrenomes à mãe Telos, veio a pensar-se que estes significavam muitos deuses.
"Pensam," diz ele, "que Telos é Ops, porque a terra é melhorada pelo labor; Mãe, porque produz muito; Grande, porque produz semente; Prosérpina, porque dela rastejam para fora os frutos; Vesta, porque está revestida de ervas. E assim," diz ele, "identificam, de modo nada absurdo, outras deusas com a terra." Se, então, é uma deusa (embora, se a verdade fosse consultada, não seja nem isso), por que, contudo, a separam em muitas? Que haja muitos nomes de uma deusa, e que não haja tantas deusas quantos são os nomes.
Mas a autoridade dos antigos que erravam pesa fortemente sobre Varrão e o compele, depois de ter expressado esta opinião, a dar sinais de inquietação; pois logo acrescenta: "Com tais coisas não conflita a opinião dos antigos, que pensavam que havia realmente muitas deusas." Como não conflita, se é coisa inteiramente diversa dizer que uma deusa tem muitos nomes e dizer que muitas deusas? Mas é possível, diz ele, que a mesma coisa seja ao mesmo tempo uma e tenha contudo em si uma pluralidade de coisas. Concedo que muitas coisas em um homem; haverá, portanto, nele muitos homens? Do mesmo modo, em uma deusa muitas coisas; haverá, portanto, também muitas deusas? Mas que dividam, unam, multipliquem, redupliquem e impliquem como bem quiserem.
Estes são os famosos mistérios de Telos e da Grande Mãe, dos quais se mostra que todos têm referência a sementes mortais e à agricultura. Acaso estas coisas, então, a saber, o tímpano, as torres, os Galos, o sacudir os membros de um lado para outro, o ruído dos címbalos, as imagens dos leões, acaso estas coisas, tendo esta referência e este fim, prometem vida eterna? Acaso os Galos mutilados servem a esta Grande Mãe a fim de significar que aqueles que carecem de semente devem seguir a terra, como se não fosse antes o caso de que este próprio serviço os fazia carecer de semente?
Pois, acaso, seguindo esta deusa, adquirem semente, estando dela carentes, ou, seguindo-a, perdem a semente quando a têm? Será isto interpretar ou depreciar? Nem se considera a que grau os demônios malignos prevaleceram, visto que puderam exigir ritos tão cruéis sem ter ousado prometer coisa alguma grande em troca deles. Não tivesse sido a terra uma deusa, os homens, trabalhando, teriam posto as mãos sobre ela a fim de obter semente por meio dela, e não teriam posto mãos violentas sobre si mesmos a fim de perder a semente por causa dela.
Não tivesse sido uma deusa, ela se teria tornado tão fértil pelas mãos de outros, que não teria compelido um homem a tornar-se estéril pelas próprias mãos; nem teria acontecido que, na festa de Líber, uma honrada matrona pusesse uma grinalda sobre as partes pudendas de um homem à vista da multidão, onde talvez estivesse de o seu marido, ruborizado e suando, se ainda resta algum pudor nos homens; e que, na celebração dos casamentos, se ordenasse à recém-casada que se sentasse sobre Priapo.
Estas coisas são bastante más, mas são pequenas e desprezíveis em comparação com aquela cruelíssima abominação, ou abominabilíssima crueldade, pela qual cada um dos sexos é de tal modo iludido que nenhum deles perece de seu ferimento. Ali se teme o enfeitiçamento dos campos; aqui não se teme a amputação dos membros. Ali se ultraja o pudor da noiva, mas de tal maneira que não lhe é tirada nem a fecundidade nem sequer a virgindade; aqui um homem é de tal modo mutilado que nem é transformado em mulher nem permanece homem.