A Cidade de Deus - Livro VII 23

Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna

Sobre a terra, que Varrão afirma ser uma deusa, porque aquela alma do mundo que ele julga ser Deus permeia também esta parte mais baixa de seu corpo e lhe confere uma força divina

Certamente a terra, que vemos repleta de seus próprios seres vivos, é uma só; mas, apesar disso, não passa de uma poderosa massa entre os elementos, a parte mais baixa do mundo. Por que, então, querem que ela seja uma deusa? Será porque é fecunda? Por que, então, não se tem antes os homens por deuses, eles que a tornam fecunda ao cultivá-la, e que, embora a arem, não a adoram? Mas dizem eles que a parte da alma do mundo que a permeia faz dela uma deusa. Como se não fosse coisa muito mais evidente, ou antes, coisa que não se põe em dúvida, que uma alma no homem.
E, contudo, os homens não são tidos por deuses, mas (coisa que se deve lamentar com tristeza), por um engano admirável e digno de compaixão, são submetidos àqueles que não são deuses, e dos quais eles próprios são melhores, como se a estes se devesse culto e adoração merecidos. E certamente o mesmo Varrão, no livro acerca dos deuses seletos, afirma que três graus de alma em toda a natureza. Um, que permeia todas as partes vivas do corpo, e não tem sensação, mas apenas a força da vida: aquele princípio que penetra nos ossos, nas unhas e nos cabelos.
Por esse princípio, as árvores no mundo são nutridas e crescem sem possuir sensação, e vivem de um modo que lhes é próprio. O segundo grau de alma é aquele em que sensação. Esse princípio penetra nos olhos, nos ouvidos, nas narinas, na boca e nos órgãos da sensação. O terceiro grau de alma é o mais elevado, e chama-se mente, onde a inteligência tem o seu trono. Desse grau de alma nenhuma criatura mortal, exceto o homem, está dotada. Ora, essa parte da alma do mundo, diz Varrão, chama-se Deus, e em nós chama-se Gênio.
E as pedras e a terra do mundo, que vemos, e que não são permeadas pela força da sensação, são, por assim dizer, os ossos e as unhas de Deus. Por outro lado, o sol, a lua e as estrelas, que percebemos, e por meio dos quais ele percebe, são os seus órgãos de percepção. Além disso, o éter é a sua mente; e pela virtude que nele há, a qual penetra nas estrelas, ela também faz delas deuses; e porque penetra através delas até a terra, faz dela a deusa Telus, donde de novo entra e permeia o mar e o oceano, fazendo deles o deus Netuno.
Deixemos que ele retorne desta, que julga ser teologia natural, de volta àquela de que partiu, a fim de descansar da fadiga ocasionada pelas muitas voltas e meandros de seu caminho. Que retorne, digo eu, que retorne à teologia civil. Desejo retê-lo ali por algum tempo. Tenho algo a dizer que diz respeito a essa teologia. Não estou ainda afirmando que, se a terra e as pedras são semelhantes aos nossos ossos e às nossas unhas, elas estejam de igual modo desprovidas de inteligência, assim como estão desprovidas de sensação.
Tampouco estou dizendo que, se de nossos ossos e unhas se diz que têm inteligência, porque estão num homem que tem inteligência, aquele que afirma que as coisas análogas a estas no mundo são deuses é tão estúpido quanto aquele que diz que nossos ossos e unhas são homens. Teremos talvez ocasião de disputar essas questões com os filósofos. Por ora, contudo, desejo tratar com Varrão como teólogo político.
Pois é possível que, embora possa parecer ter querido erguer a cabeça, por assim dizer, à liberdade da teologia natural, a consciência de que o livro de que se ocupava era um livro acerca de um tema pertencente à teologia civil possa tê-lo feito recair no ponto de vista dessa teologia, e dizer isto para que não se cresse que os antepassados de sua nação, e de outros Estados, houvessem prestado a Netuno um culto irracional. O que tenho a dizer é isto: visto que a terra é uma só, por que a parte da alma do mundo que permeia a terra não fez dela aquela única deusa que ele chama Telus?
Mas, se assim tivesse feito, que teria sido então de Orco, o irmão de Júpiter e Netuno, a quem chamam Pai Dis? E onde, nesse caso, teria ficado sua esposa Prosérpina, que, segundo outra opinião dada no mesmo livro, é chamada não a fecundidade da terra, mas a sua parte mais baixa? Mas, se dizem que a parte da alma do mundo, quando permeia a parte superior da terra, faz o deus Pai Dis, mas, quando permeia a parte inferior da mesma, faz a deusa Prosérpina, que será, nesse caso, aquela Telus?
Pois tudo aquilo que ela era foi dividido nestas duas partes, e nestes dois deuses; de modo que é impossível encontrar o que fazer dela ou onde colocá-la como uma terceira deusa, a menos que se diga que aquelas divindades, Orco e Prosérpina, são a única deusa Telus, e que não são três deuses, mas um ou dois, enquanto, não obstante, são chamados três, tidos por três, adorados como três, tendo cada um deles seus próprios altares, seus próprios santuários, ritos, imagens e sacerdotes, ao passo que seus próprios demônios falsos, também por meio dessas coisas, contaminam a alma prostituída.
Responda-se ainda a esta questão: que parte da terra permeia uma parte da alma do mundo a fim de fazer o deus Telumão? Não, diz ele; mas a terra, sendo uma e a mesma, tem uma dupla vida: a masculina, que produz a semente, e a feminina, que recebe e nutre a semente. Por isso foi chamada Telus, do princípio feminino, e Telumão, do masculino. Por que, então, os sacerdotes, conforme ele indica, prestam serviço divino a quatro deuses, sendo acrescentados outros dois, a saber, a Telus, Telumão, Altor e Rusor? falamos acerca de Telus e Telumão. Mas por que adoram Altor?
Porque, diz ele, tudo o que brota da terra é nutrido pela terra. Por que adoram Rusor? Porque todas as coisas retornam de novo ao lugar de onde procederam.