A Cidade de Deus - Livro VII 19
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Sobre as interpretações que compõem a razão do culto a Saturno
Diziam, conta Varrão, que Saturno costumava devorar tudo o que dele nascia, porque as sementes retornavam à terra de onde haviam brotado. E quando se diz que um torrão de terra foi posto diante de Saturno para ser devorado em lugar de Júpiter, significa-se, diz ele, que antes de se descobrir a arte de arar, as sementes eram enterradas no solo pelas mãos dos homens. A própria terra, portanto, e não as sementes, é que deveria ter sido chamada Saturno, porque ela de certo modo devora o que produziu, quando as sementes que dela brotaram a ela novamente retornam.
E que tem a ver o fato de Saturno receber um torrão de terra em lugar de Júpiter com isso, que as sementes eram cobertas no solo pelas mãos dos homens? Por acaso a semente, ao ser coberta com o solo, ficava preservada de ser devorada, como as demais coisas? Pois o que eles dizem implicaria que aquele que pôs o solo retirou a semente, assim como se diz que Júpiter foi retirado quando o torrão de solo foi oferecido a Saturno em seu lugar; e não antes que o solo, ao cobrir a semente, apenas fizesse com que ela fosse devorada com mais avidez. Então, desse modo, Júpiter é a semente, e não a causa da semente, como se disse pouco antes.
Mas que farão os homens que nada de sábio conseguem dizer, porque estão interpretando coisas tolas? Saturno tem uma foice de podar. Isso, diz Varrão, é por causa da agricultura. Certamente no reinado de Saturno ainda não existia agricultura alguma, e por isso se fala dos tempos antigos de Saturno, porque, como o mesmo Varrão interpreta as fábulas, os homens primitivos viviam daquelas sementes que a terra produzia espontaneamente. Talvez ele tenha recebido uma foice de podar quando perdeu o cetro; de modo que aquele que fora rei, e vivera em descanso durante a primeira parte de seu tempo, se tornasse um trabalhador laborioso enquanto seu filho ocupava o trono.
Diz ele, em seguida, que por certos povos costumavam imolar-lhe meninos, como os cartagineses, por exemplo; e também que por algumas nações se imolavam adultos, como, por exemplo, os gauleses, porque, de todas as sementes, a raça humana é a melhor. Que mais precisamos dizer acerca desta cruelíssima vaidade? Antes atentemos para isto e a isto nos atenhamos: que tais interpretações não se elevam até o Deus verdadeiro, natureza viva, incorpórea e imutável, da qual se pode obter uma vida bem-aventurada que perdura para sempre, mas que terminam em coisas que são corpóreas, temporais, mutáveis e mortais.
E, ao passo que se diz nas fábulas que Saturno castrou seu pai Céu, isto significa, diz Varrão, que a semente divina pertence a Saturno, e não a Céu; e por esta razão, na medida em que uma razão se pode descobrir, a saber, que no céu nada nasce de semente. Mas, eis que Saturno, se é filho de Céu, é filho de Júpiter. Pois eles afirmam inúmeras vezes, e com ênfase, que os céus são Júpiter. Assim, aquelas coisas que não procedem da verdade, muitíssimas vezes, sem que ninguém as impila, por si mesmas se derrubam umas às outras.
Diz ele que Saturno foi chamado Κρόνος, palavra que na língua grega significa um espaço de tempo, porque, sem ele, a semente não pode ser produtiva. Estas e muitas outras coisas se dizem acerca de Saturno, e todas se referem à semente. Mas Saturno, certamente, com todo aquele grande poder, teria podido bastar para a semente. Por que se exigem outros deuses para ela, sobretudo Líber e Líbera, isto é, Ceres? Acerca dos quais, de novo, no tocante à semente, ele diz tantas coisas como se nada houvesse dito acerca de Saturno.