A Cidade de Deus - Livro VII 15
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Sobre certos astros que os pagãos chamaram pelos nomes de seus deuses
Mas talvez estes astros que foram chamados pelos nomes deles sejam estes deuses. Pois chamam a certo astro Mercúrio, e do mesmo modo a certo outro astro Marte. Ora, entre aqueles astros que são chamados pelos nomes dos deuses, está aquele que eles chamam Júpiter, e contudo, para eles, Júpiter é o mundo. Ali está também aquele que chamam Saturno, e contudo lhe atribuem, além disso, uma propriedade não pequena, a saber, todas as sementes.
Ali está também o mais brilhante de todos, que por eles é chamado Vênus, e contudo querem que esta mesma Vênus seja também a lua: para não mencionar como Vênus e Juno, segundo eles, disputam por aquele astro tão fulgurante, como se fosse por uma outra maçã de ouro. Pois alguns dizem que Lúcifer pertence a Vênus, e outros, a Juno. Mas, como de costume, Vênus vence. Pois de longe o maior número atribui aquele astro a Vênus, a ponto de dificilmente se encontrar entre eles quem pense de outro modo. Mas, visto que chamam Júpiter o rei de todos, quem não rirá ao ver o astro dele tão superado em brilho pelo astro de Vênus?
Pois ele deveria ter sido tanto mais brilhante que os demais quanto ele próprio é mais poderoso. Respondem que assim parece apenas porque está mais alto e muito mais distante da terra. Se, portanto, sua maior dignidade mereceu um lugar mais elevado, por que Saturno está mais alto nos céus do que Júpiter? Não foi capaz a vaidade da fábula, que fez Júpiter rei, de alcançar os astros? E foi permitido a Saturno obter ao menos nos céus o que não pôde obter em seu próprio reino nem no Capitólio?
Mas por que Jano não recebeu astro algum? Se é porque ele é o mundo, e todos estão nele, então o mundo também é de Júpiter, e contudo este tem um astro. Acaso Jano resolveu seu caso da melhor maneira que pôde e, em lugar do único astro que não possui entre os corpos celestes, aceitou tantas faces na terra?
Demais, se pensam que somente por causa dos astros Mercúrio e Marte são partes do mundo, a fim de poderem tê-los por deuses, visto que a palavra e a guerra não são partes do mundo, mas atos dos homens, como é que não fizeram altares, não instituíram ritos, não edificaram templos para Áries, e Touro, e Câncer, e Escorpião, e os demais que enumeram como signos celestes, os quais não constam de astros isolados, mas cada um deles de muitos astros, e que, segundo dizem, estão situados acima daqueles já mencionados, na parte mais alta dos céus, onde um movimento mais constante faz os astros seguirem um curso que não se desvia?
E por que não os contaram entre os deuses, não digo entre aqueles deuses seletos, mas nem sequer entre aqueles deuses, por assim dizer, plebeus?